
Cegos têm uma audição mais aguçada. Mito ou realidade?
O córtex auditivo dos deficientes visuais apresenta uma “sintonização” neural mai estreita
Diversos estudos mostram que a audição de deficientes visuais é, de fato, mais aguçada em relação às pessoas que podem enxergar, mas foi apenas recentemente que uma equipe norte-americana conseguiu explicar como o sistema nervoso de pessoas com e sem deficiência diferem.

A afirmação de que cegos têm a audição mais aguçada que pessoas que têm a visão normal é muito comum. Até Hollywood já tomou proveito da crença, transformando em filme a HQ “Demolidor”, em que o protagonista é um super-herói cego com os outros sentidos mais acentuados. Mesmo assim, um estudo recente mostra que isso é mais realidade que fantasia.
Cientistas da Universidade de McGill, no Canadá, testaram pessoas cegas e com a visão normal para analisar a sua habilidade para localizar sons. Seguindo a lógica da crença, os cegos tiveram maiores pontuações nos testes, mas os cientistas perceberam que a idade em que a pessoa ficou cega afetou sua performance na experiência.
continua depois da publicidade |
|
Aquelas que nasceram cegas tiveram a melhor performance, e aqueles que ficaram cegos quando eram crianças ficaram só um pouco para trás. As pessoas que perderam a visão depois dos dez anos tiveram uma colocação semelhante à das pessoas com a visão normal.
Os pesquisadores acreditam que isso acontece porque o cérebro de uma criança pode se reestruturar para que as áreas do cérebro usadas para o processamento visual sejam usadas para outros propósitos.

Uma evidência disso são imagens dos cérebros das pessoas cegas que tiveram a melhor habilidade para localizar os sons. De acordo com os cientistas, o cérebro dessas pessoas trabalha com as áreas visuais e auditivas do córtex. Os cegos que tiveram menores pontuações tinham pouca ou nenhuma atividade no lóbulo visual, assim como as pessoas com a visão normal.
Costuma-se dizer que a perda de um sentido melhora os outros. Novas pesquisas mostram o quanto isso é verdade em pessoas cegas, e como seus cérebros fazem novas conexões para aumentar a audição, olfato, tato e até funções cognitivas como a memória e a linguagem.
Um novo estudo publicado na PLOS One é o primeiro a mostrar diferenças estruturais, funcionais e anatômicas em cérebros de pessoas cegas que não estão presentes em pessoas com visão normal. Essas mudanças, que estão associadas com a audição, olfato, tato e cognição, são mais espalhadas pelo cérebro do que se achava anteriormente, revelando a grande extensão pela qual nossos cérebros “plásticos” podem compensar na ausência de informação sensorial.

Usando escaneamentos de ressonância magnética, pesquisadores do Schepens Eye Research Institute of Massachusetts Eye and Ear analisaram os cérebros de 12 pessoas diagnosticadas nos primeiros estágios de cegueira profunda. Todos os pacientes ou nasceram cegos, ou ficaram cegos após os três anos de idade. Esse grupo foi comparado com 16 pessoas com visão normal. Diferentemente de estudos anteriores que só consideravam mudanças no lobo occipital (a parte do cérebro onde a visão é processada), o novo estudo olhou para o cérebro inteiro.
continua depois da publicidade |
“Por mais que conseguimos replicar muitas das descobertas anteriormente relatadas, nossa abordagem direcionada por dados do cérebro inteiro nos permitiu observar mudanças em outras áreas do cérebro não reportadas anteriormente”.
“Esse estudo representa um importante esforço em usar múltiplos métodos de ressonância magnética do cérebro inteiro para entender as mudanças estruturais e funcionais que acompanham experiências sensoriais alteradas durante o desenvolvimento”, disse a neurocientista Christina Karns, da Universidade de Oregon, que não está envolvida na pesquisa. “Com uma vida inteira de experiência sensorial diferente da típica, um número de diferentes sistemas corticais são alterados. Esse estudo levanta a questão de se alguma mudança perceptiva ou cognitiva pode acompanhar essas mudanças estruturais.”


















