
Pedras se movem sozinhas no Vale da Morte, nos EUA
Por muito tempo a causa deste movimento permaneceu controversa, mas o mistério foi resolvido.
A capacidade de nos surpreender é uma das principais caraterísticas da natureza: no Racetrack Playa, em Death Valley, Estados Unidos, há pedras que se movem. Ao longo do tempo, elas vão deixando um rastro de seu percurso.

Uma zona do chamado “Vale da Morte”, na Califórnia (EUA), é o lar de um estranho fenômeno: as pedras da paisagem parecem se mover por conta própria, deixando para trás longas trilhas no chão de argila rachado.
Estas peregrinações minerais confundem os cientistas há mais de cinco décadas. Ninguém nunca tinha visto as pedras realmente se movendo, mas elas devem se mover, porque as rochas locais, e as trilhas que elas deixam atrás de si, mudam de posição ao longo do tempo.
Algumas destas pedras chegam a pesar 300kg. Elas ficam em um lago seco, plano e rodeado por montanhas. Em algumas épocas do ano, este lago se enche com água da chuva, que evapora rapidamente.

Estas pedras se movem, deixando um rastro na terra por dezenas de metros. Mas, desde que elas começaram a ser estudadas por cientistas, nos anos 1940, ninguém as havia visto se mover.
Isso fez com que surgissem várias teorias para o fenômeno, algumas delas bastante exóticas, atribuindo seu movimento a campos de energia poderosos, ao magnetismo da Terra e até mesmo a extraterrestres.
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Observações e hipóteses
O primeiro registro escrito conhecido é de McAllister and Agnew, que em 1948 publicaram um artigo no Geological Society of America’s Bulletin, sugerindo que a causa do movimento das rochas era os ventos. Outras pesquisas se seguiram, com mapeamento da área, medições e contagem dos rastros e das pedras, e de outras características geológicas. Especulou-se sobre várias causas possíveis, como tectonismo, anomalias magnéticas, correntes de água e inundações, formação de boias de gelo em torno das pedras, e interferência humana.
George Stanley (1955) considerou que os ventos registrados na região são pouco potentes para mover rochas que pesam até 300 kg, e sugeriu que a formação de placas de gelo em torno das pedras poderia ser um fator auxiliar no aumento de sua superfície sem aumento significativo em seu peso, favorecendo a captação do vento e o incremento local de sua potência, bem como o deslizamento.

Em 1995 o professor John Reid e seis estudantes da Universidade de Massachusetts estudaram o caso e encontraram várias incongruências, embora tenham conseguido provar em algumas ocorrências a efetiva colaboração do gelo no processo.
Paula Messina (1988) assinala que embora haja tendência de as rochas maiores deixarem rastros mais curtos, uma regra neste sentido não é consistente com as observações, e os dados coletados mostram uma configuração bastante caótica e imprevisível. Sugere ainda que a comprovada formação de uma película de limo lubrificante por cianobactérias aumenta a viscosidade da lama e favorece o deslizamento.
Fim do mistério
Na época em que Richard e James presenciaram o fenômeno, no fim de 2013, havia chovido bastante na região e até mesmo nevado.
Há alguns meses, Ralph Lorenz, pesquisador do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Maryland, e um dos autores do estudo publicado nesta semana, explicou por que havia sido difícil captar o movimento das rochas.

Em 2014, após anos de teorias e especulações, um grupo de pesquisadores conseguiu desvendar o mistério das pedras utilizando câmeras e GPS. Eles notaram que apesar do lago passar grande parte do tempo seco, chuvas e tempestades são suficientes para armazenar uma pequena camada de água em sua superfície. Várias são as condições necessárias para que o movimento ocorra, e por isso ele é infrequente. Deve ser um tempo frio, capaz de criar uma fina camada de gelo sobre a superfície da água durante a noite, em geral de 3–6 mm, não muito maior do que a espessura do vidro de janelas, mas que não congele toda a água, deixando uma camada líquida por debaixo. Ao nascer o sol, o gelo começa a quebrar, formando de início grandes placas flutuantes, até que o calor do dia as fragmente em pequenos pedaços. No experimento conduzido, todos os movimentos ocorreram perto do meio-dia, em dias ensolarados depois de noites frias. Deve também haver vento, cuja ação empurra as ditas placas para várias direções sobre a camada de água que permanece líquida.
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Os maiores episódios de movimento foram registrados com velocidades de vento acima de 5 metros por segundo. Enquanto as placas de gelo permanecem grandes, mas o calor do dia já abriu alguns caminhos de água livre para que possa haver um deslocamento, se encontram rochas pelo caminho, elas são empurradas também. Essas grandes placas explicam os movimentos paralelos de grupos de rochas, todas empurradas juntas pela mesma placa. Observou-se que as rochas não flutuam sobre o gelo, aderidas a ele, como teorias antigas postulavam, mas são apenas empurradas pelas placas em movimento. No entanto, largas placas podem se acavalar sobre as rochas, aumentando ainda mais a área exposta ao vento. O deslocamento pode ser descontínuo, depende da constância dos ventos; é relativamente lento, sendo observados movimentos de no máximo 6 metros por minuto, e pode passar despercebido pelo olhar desatento, especialmente se não existem outras rochas estacionárias por perto para evidenciar claramente uma mudança na sua posição.


















