Página Inicial » Ciência Avançada




|03|

Carne artificial pode salvar o mundo?

A carne artificial é uma possível resposta para os problemas ambientais causados pela pecuária.

Como a carne artificial pode salvar o mundo?

Em uma manhã de primavera comum em Columbia, no estado norte-americano do Missouri, Ethan Brown está no meio de uma cozinha comum rasgando uma tira frango. “Olhe para isso”, diz ele. “É incrível!”. Em torno dele, um punhado de trabalhadores robustos de uma fábrica de alimentos do Centro-Oeste do país se inclina e acena com aprovação.

A carne que Brown está cortando parece normal o suficiente: é bege e se separa em longos fios. Não estaria deslocada em uma salada ceasar ou em uma coxinha. Bob Prusha, colega de Brown, está sobre um fogão cozinhando uma porção para todos comerem. Porém, a carne que Brown está mexendo e Prusha está fritando está longe de ser comum. Na verdade, não é carne.
 
Brown é o CEO da Beyond Meat (“Além da carne”), uma empresa que, há quatro anos, fabrica um substituto feito principalmente de proteínas de soja e ervilha e amaranto.
 
Carne artificial não é uma ideia nova. Supermercados estão cheios de produtos substitutos à base de plantas – alguns tipos de hambúrgueres vegetarianos entram na lista, isso sem mencionar os asiáticos tofu (“queijo” feito de soja) e seitan (“carne” feita de glúten). O que diferencia a Beyond Meat é quão surpreendentemente parecido com a carne seu produto é. As tiras de “frango” têm a distinta estrutura fibrosa das aves de granja e possuem um perfil nutricional similar. Cada porção tem aproximadamente a mesma quantidade de proteína que uma porção equivalente de carne de frango, mas com zero colesterol ou gorduras saturadas e trans.
 
Para Brown, há pouca diferença entre seu produto e a coisa real. “Galinhas de granjas industriais não são realmente tratadas como animais”, afirma ele. “Elas são máquinas que transformam insumos vegetais em peitos de frango”. A Beyond Meat simplesmente utiliza um sistema de produção mais eficiente. No lugar de um quilo de frango desossado cozido que requer quase 3,5 kg de ração seca e 30 litros de água, a mesma quantidade da Beyond Meat requer apenas 0,5 kg de ingredientes e dois litros de água.
 
A capacidade de criar carne de forma eficiente, ou algo suficientemente parecido com carne, se tornará cada vez mais importante nos próximos anos, porque a humanidade pode estar chegando a um ponto em que não há proteína animal suficiente. A ONU espera que a população mundial cresça dos atuais 7,2 bilhões para 9,6 bilhões até 2050. Além disso, conforme países como a China e a Índia continuam a se desenvolver, as suas populações estão adotando dietas mais ocidentais. Em todo o mundo, a quantidade de carne consumida por pessoa quase dobrou de 1961 a 2007, e a ONU projeta que irá dobrar novamente até 2050.
Em outras palavras, o planeta precisa repensar a forma como obtém sua carne. Brown está abordando a questão fornecendo um análogo quase perfeito, mas ele não está sozinho ao reinventar produtos de origem animal. Do outro lado da mesma cidade, a Modern Meadow usa impressoras 3D e engenharia de tecidos para cultivar carne em laboratório. A empresa já tem uma geladeira cheia de carne bovina e suína cultivada em laboratório. Na verdade, o cofundador da empresa, Gabor Forgacs, fritou e comeu um pedaço de carne de porco projetada no palco em sua palestra no TED Talk em 2011. Outro cientista, Mark Post, da Universidade de Maastricht, na Holanda, também está usando engenharia de tecidos para produzir carne em laboratório. Em agosto, ele serviu hambúrguer totalmente cultivado em laboratório em dois jantares em um palco de Londres enquanto uma multidão de curiosos, mas céticos, observava.
 
Vendo de perto, a fábrica da Beyond Meat é bastante semelhante a qualquer outra. Máquinas de metal anódino batem ao longe. Ingredientes são armazenados em barris plásticos. Em uma pequena esteira azul, tiras de frango de Brown emergem da maquinaria cozidas e com um formato estranhamente retilíneo. Eles ainda não estão temperadas, mas estão prontas para comer. No final da correia transportadora, as faixas ainda fumegantes caem sem cerimônia dentro de um balde de aço, onde pousam com um baque surdo.
 
Olhando para o balde cheio de tiras pré-cozidas, é difícil imaginar um futuro em que a carne, por necessidade, não é carne. Ou em que a carne é cultivada em uma fábrica em vez de um campo ou em confinamento. Contudo, esse futuro está se aproximando rapidamente e tanto a Beyond Meat quanto a Modern Meadow estão o confrontando de cabeça.
Consumo nada sustentável

A cada ano, os norte-americanos comem mais de 200 quilos de carne por pessoa, e o meio do Missouri é um lugar bom para ver o que é preciso para satisfazer este apetite.
Columbia fica exatamente no centro do estado, de modo que se aproximar do local a partir de qualquer direção significa passar por enormes extensões de terras agrícolas, soja, campos de trigo e milho e rebanhos de gado de pastagem. Paradas de caminhões gigantescas brilham no horizonte e trens com quilômetros de extensão rebocam vagões carregados com grãos que vão para lugares tão distantes como o México e a Califórnia.
 
É um lugar rico que por quase 150 anos tem alimentado a nação e exportado. No entanto, a maioria das culturas cultivadas em torno de Columbia nunca vai chegar a mesas da sala de jantar, mas sim irá para cochos de confinamento gigantes. Isso não é incomum. Cerca de 80% das terras do mundo são usadas para apoiar as indústrias de carnes e aves e muito disto vai para a alimentação animal. Este não é um uso eficiente dos recursos. Por exemplo, cerca de meio quilo de carne cozida, o equivalente a uma refeição em família de hambúrgueres, requer 298 metros quadrados de terreno, 27 quilos de ração e 211 litros de água.
O fornecimento de carne não só devora recursos, mas também cria resíduos. Esse mesmo quilo de hambúrguer requer mais de 4.000 BTUs de energia de combustíveis fósseis para chegar à mesa do jantar; algo tem que alimentar tratores, confinamentos, matadouros e caminhões. Esse processo, juntamente com o metano que as vacas emitem ao longo das suas vidas, chega a contribuir com 51% de todo o gás de efeito de estufa produzido no mundo.
 
Para entender como os seres humanos desenvolveram uma tal dependência de carne, é útil começar pelo começo. Há vários milhões de anos, os hominídeos tinham grandes entranhas e cérebros menores. Isso começou ser revertido em torno de dois milhões de anos atrás: o cérebro ficou maior, assim com o estômago ficou menor. A principal razão para a mudança, de acordo com um estudo seminal de 1995 realizado pela antropóloga evolucionária Leslie Aiello, então da University College London, é que nossos ancestrais começaram a comer carne, uma fonte de calorias compacta e de alta energia. Com a carne, os hominídeos não precisaram manter um sistema digestivo grande e consumidor de muita energia. Em vez disso, eles puderam desviar a energia para outro lugar. Ou seja, alimentaram grandes cérebros com fome de energia. E com esses cérebros, eles mudaram o mundo.
Conforme o tempo avançava, a carne tornou-se culturalmente importante também. A caçada fomentava a cooperação: cozinhar e comer a caça reuniu comunidades ao redor de rituais compartilhados – como ainda fazem os churrascos de domingo. Neal Barnard, um autor de nutrição e médico da Universidade George Washington, afirma que hoje o apelo cultural de carne supera quaisquer benefícios fisiológicos. “Nós já sabíamos há muito tempo que as pessoas que não comem carne são mais magras, mais saudáveis ​​e vivem mais tempo do que as pessoas que o fazem”, garante ele.
 
Nutricionalmente, a carne é uma boa fonte de proteínas, ferro e vitamina B12, entretanto Barnard diz que esses nutrientes estão facilmente disponíveis a partir de outras fontes que não são também carregadas de gorduras saturadas. “Por milênios de nossa jornada na Terra, temos consumido proteína o bastante a partir de fontes totalmente baseadas em vegetais. A vaca obtém sua proteína desta forma e simplesmente a reorganiza em músculo. As pessoas dizem: ‘Nossa, se eu não comer o músculo, de onde vou receber proteína?’ Você obtê-la a partir do mesmo lugar que a vaca”.
 
Para Barnard, a conclusão simples é que todos deveriam se ater a comer vegetais – e ele está certo de que seria um uso muito mais eficiente de todas aquelas terras cultiváveis​​. Ainda assim, para a maioria das pessoas a carne tem um gosto bom. Estudos sugerem que a ingestão de carne ativa o centro de prazer do cérebro praticamente da mesma forma que o chocolate. Mesmo muitos vegetarianos dizem que bacon cheira muito bem quando se está cozinhando. Por alguma razão, a maioria das pessoas simplesmente gostam de comer carne. E isso faz recriá-la, seja a partir de vegetais ou de células em um laboratório, extremamente difícil.

O futuro

Em meados da década de 1980, um cientista de alimentos chamado Fu-hung Hsieh mudou-se para Columbia, para iniciar um programa de engenharia de alimentos da Universidade de Missouri. Hsieh estava vindo para a academia após uma carreira de sucesso na indústria de alimentos processados, na Quaker Oats Company, e ele convenceu a universidade a lhe comprar uma máquina de extrusão de nível comercial, algo quase inédito em um ambiente acadêmico.
 
Uma extrusora é uma dos equipamentos mais importantes e versáteis da indústria de alimentos processados, a responsável pela invenção de Froot Loops, Cheetos e massa de biscoito pré-pronta. Ingredientes secos e molhados são vertidos num funil em uma extremidade da máquina e empurrados através de um cano longo, dentro do qual são sujeitos a níveis variáveis ​​de calor e pressão. No fim do barril, os ingredientes passam através de uma matriz que os deixa de qualquer forma e textura que a máquina tenha sido programada para produzir. A mistura emerge na extremidade em uma fita contínua de alimentação, a qual é cortada nas porções desejadas.
 
Em um nível, uma extrusora é uma simples máquina, algo como um gigante fabricante de salsichas, porém, produzir o resultado desejado pode ser diabolicamente complicado. “Algumas pessoas dizem que a extrusão termoplástica é uma forma de arte”, conta Harold Huff, um nativo do Missouri amante de carne que trabalha com Hsieh como especialista de pesquisa sênior. Por volta de 1989, Hsieh e Huff tiveram interesse em usar a extrusora para fazer o primeiro análogo de carne realista. “Não nos preocupamos com o sabor ou qualquer outra coisa”, relembra Hsieh. “Nós queríamos que aquilo se rasgasse como frango – tudo era apenas sobre a aparência inicial”.
 
Eles sabiam que não havia um único ajuste físico ou químico que traria uma solução. Eles precisariam experimentar. “Você tem que ter os ingredientes certos, a temperatura certa, o hardware certo”, descreve Huff. “Você tenta coisas, faz observações e ajustes durante anos, mesmo décadas”. E assim foi, até que receberam o chamado de Ethan Brown em 2009.
 
Brown, um ambientalista vegano, estava trabalhando para uma empresa de células de combustível e tornou-se frustrado pela ignorância de seus colegas sobre o papel da carne na mudança climática. “Nós íamos a conferências e sentávamos falando sobre todas essas questões [de energia] e depois íamos para o jantar e as pessoas pediam enormes bifes”, conta. “Eu pensava, ‘Isso é estúpido'”. Para a surpresa de velhos amigos, que brincavam dizendo que ele estava se mudando para o interior para iniciar uma fábrica de tofu, ele começou debruçando-se sobre artigos de periódicos e se lançando em torno de análogos de carne para o mercado – é assim que ele ouviu falar sobre o trabalho de Hsieh.
 
Brown licenciou o frango vegetariano e começou a refinar a ideia com cientistas para o consumo de massa. “Se usássemos muita soja, ficava muito firme, com pouca, tornava-se suave como tofu”, lembra Brown.
 
À medida que Brown e Hsieh refinavam o produto, ele começou a ficar conhecido. Bill Gates, que adotou a crise na produção de carne como um de seus problemas principais, publicou um relatório sobre o assunto em seu blog, The Gates Notes, no qual ele endossou a Beyond Meat como uma inovação importante. Talvez o mais impressionante, o correspondente de alimentos do jornal “The New York Times” e autor do livro de receitas best-seller, Mark Bittman provou a Beyond Meat em um teste cego no ano passado (a mando de Brown, que serviu a Bittman um burrito) e garantiu que o produto o “enganou direitinho”. O cofundador do Twitter, Biz Stone, investiu na empresa no ano passado, não muito tempo depois da poderosa firma de capital de risco do Vale do Silício Kleiner Perkins Caufield & Byers também ter comprado uma participação.
 
A fábrica em Columbia anda em festa porque a empresa está preparando o seu primeiro carregamento de produto embalado para a Whole Foods, rede de supermercados de produtos orgânicos presente em todo os EUA, que concordou em vendê-lo em todo o país depois de um teste bem sucedido em algumas lojas da Califórnia. No piso de produção, a extrusora está rugindo, bombeando tiras prontas para tempero, congelamento instantâneo, ou grelhagem rápida. Uma leitora digital mostra a configuração da matriz que dá à Beyond Meat sua estrutura semelhante ao frango. O molho secreto da empresa, o resultado de todos esses anos de pesquisa, é a única coisa que não é totalmente transparente sobre a operação.
 
Brown criou um teste de sabor: três pratos de Beyond Meat, em três sabores pré-temperados. Uma das tiras tem um gosto que lembra um pouco soja na forma de frango, polvilhado com molho chipotle. Também é assim que parece ao mastigar. Fica a impressão de estar comendo algo mais parecido com carne do que com vegetais.
 
Ao substituir os peitos de frango desossados pelas tiras levemente temperadas em várias refeições como uma omelete com espinafre e queijo feta ou fajitas, não há dúvidas de que aquilo não é galinha. A Beyond Meat não traz todo o pacote sensorial – a pele crocante, os sucos -, porém quando se quer consumir uma proteína magra em algum outro prato, com um sabor leve, pouco importa se aquilo se trata de um animal ou vegetal. Mas, e se for nenhum dos dois?

Fazendo carne

Do outro lado de Columbia, em uma start-up incubadora de biotecnologia na borda do campus da Universidade do Missouri, os cientistas da Modern Meadow estão trabalhando em uma solução muito diferente para a crise da produção de carne. Uma impressora 3D sobre o tamanho de uma unidade de desktop HP produz uma linha de gosma amarelada em uma placa de Petri. Indo para frente e para trás, a máquina cria uma série de linhas estreitas a um fio de cabelo de distância. Depois de cobrir uns poucos centímetros da placa, a impressora muda de direção e estabelece novas linhas sobre os primeiros em um padrão axadrezado. Não há barulho, propriamente dito, contudo existe um zumbido elétrico, sem cheiro, nada que sugira que a gosma é uma forma embrionária de carne que vai se transformar em uma pequena salsicha. Uma vez que a impressora termina seu trabalho, o resultado é algo como um grande Band-Aid.

Para chegar a este estágio, cerca de 700 milhões de células de carne bovina passaram duas semanas crescendo em uma incubadora. As células foram, em seguida, giradas aleatoriamente em uma centrífuga e a pasta resultante, que é da consistência de mel, foi transferida para uma seringa grande que atua como o fim da atividade da impressora.
 
As células impressas agora vão voltar para uma incubadora por mais alguns dias, durante os quais vão começar a desenvolver uma matriz extracelular, um esqueleto natural de colágeno que dá às células apoio estrutural. O resultado é um tecido muscular real.
 
A tecnologia é o trabalho de Gabor Forgacs, um físico teórico de origem húngara que transformou a biologia do desenvolvimento em carreira. Em 2005, ele liderou uma equipe que desenvolveu um processo para imprimir agregados multicelulares em vez de células individuais. Sua impressora produz tubos fisiologicamente viáveis ​​de células que podem aderir para criar grandes estruturas complexas.
Em 2007, Gabor e seu filho, Andras, ajudaram a fundar uma empresa chamada Organovo que utiliza a tecnologia de Gabor para imprimir tecido humano para aplicações médicas (testes farmacêuticos, por exemplo) e tem como objetivo um dia imprimir órgãos humanos funcionais para transplantes. Gabor foi a mente científica por trás da empresa e Andras trabalhou em várias funções no lado dos negócios.
 
Mais tarde, carne artificial biofabricada entrou na mira da empresa. Gabor suspeitou que carne artificial seria mais simples de produzir do que partes humanas funcionais. “Se podemos fazer tecidos vivos, então certamente podemos fazer tecidos de grau alimentício, que não têm que ser tão exigentes”, conta. “Nós não temos que nos preocupar com a compatibilidade imunológica, por exemplo”.
No final de 2011, Andras voltou para os EUA e a equipe conseguiu um subsídio de Inovação em Pequenas Empresas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) pouco depois. Em seguida, ele recebeu uma bolsa da Breakout Labs, um braço da fundação Peter Thiel. (Thiel é um co-fundador do PayPal, investidor de tecnologia e futurista.) Com a ajuda da concessão, Andras montou um escritório comercial na Singularity University, no campus do parque de pesquisa do Vale do Silício da NASA, e Gabor configurou seu quartel-general científico em Columbia. E a Modern Meadow nasceu.
 
Tão macabro como os crescentes sons da carne de laboratório, o conceito tem uma longa história, e não apenas na ficção científica. Em 1931, Winston Churchill escreveu: “Em cinquenta anos, portanto, vamos escapar do absurdo do crescimento de um frango inteiro a fim de comer o peito ou asa, pelo cultivo dessas partes separadamente em um meio adequado”. Ele estava errado sobre a data, contudo o mesmo sentimento impulsiona a comunidade de carnes alternativas hoje.
 
Se você considerar as condições em que a carne é produzida, como os animais são tratados e a quantidade de resíduos envolvida, é a pecuária, e não cultura de tecidos, que parece ser a opção macabra. Em comparação, a carne de laboratório parece tanto humana quanto sensível. Um estudo para a União Europeia previu que, se produzida em larga escala, a carne cultivada em laboratório usaria 99,7% menos terra e 94% menos água do que a pecuária industrial e contribuiria 98,8% menos com gases do efeito estufa.
 
Ao longo das últimas décadas, um punhado de cientistas têm buscado a carne cultivada em laboratório, principalmente Mark Post na Holanda. Post criou o hambúrguer para o seu teste de sabor em Londres usando um processo de engenharia de tecidos diferente, que envolve as células que crescem em torno de um esqueleto cilíndrico. De acordo com Isha Datar, o diretor da New Harvest, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e defesa que incide sobre alternativas à carne, o processo de Post pode realmente ser “mais favorável à produção em massa, teoricamente” do que a impressão 3D da Modern Meadow. Por outro lado, Datar aponta para o avanço que a Modern Meadow já tem: “É um negócio real. Os outros grupos são todos acadêmicos e você nunca sabe se eles têm o poder de sair do laboratório”.
 
Em agosto, a Modern Meadow estava experimentando com outras técnicas de biomontagem que poderiam rapidamente produzir grandes conjuntos de células. E Mark Post revelou seu próprio patrocinador de alto escalão do Vale do Silício: o cofundador do Google, Sergey Brin, cujo histórico de trazer produtos improváveis ​​para o mercado não é dos piores.
 
Mas, sendo o primeiro no mercado, não importa se a carne que sai dos laboratórios não é apetitosa. O hambúrguer de Post recebeu críticas mornas de seus dois degustadores. E os produtos atuais da Modern Meadow dificilmente são reconhecíveis como carne. Carecem de sangue e gordura, que são responsáveis ​​pela maior parte da cor, sabor e textura suculenta da carne real. Karoly Jakab me mostra um par de amostras que ele está armazenando na geladeira do laboratório: elas se parecem com pequenas salsichas em um tom entre bege e cinza – versões prontas do “Band-Aid” que sai impressora, do tamanho do dedo mindinho de uma criança.

Para tornar a carne mais atraente, a Modern Meadow recrutou o chef de Chicago Homaro Cantu, cujo restaurante, Moto, tornou-se um ícone da gastronomia molecular. Para a empresa, ele vai estar trabalhando no que Andras chama de “questões da reta final”, como textura, sabor, aparência e paladar, por exemplo, sugerindo a quantidade de gordura a ser adicionada e de que tipo. E em algum momento dos próximos dois anos, Andras diz que, com a ajuda de Cantu, a Modern Meadow planeja começar a conduzir sessões de degustação somente para convidados, onde os amigos da companhia vão experimentar pratos.
 
Haverá uma abundância de obstáculos técnicos só para chegar a esse ponto, mas colocar a carne cultivada em laboratório nas mãos das massas poderia ser ainda mais complicado, porque não há nenhum precedente regulamentar. A aprovação legal (nos EUA e em outros países) pode demorar pelo menos 10 anos depois da criação de um produto.
 
Nesse meio tempo, a Modern Meadow precisa para ganhar dinheiro, então a equipe está muito interessada no cultivo de couro, o que acaba sendo mais fácil do que a carne e não vai enfrentar tantos obstáculos regulatórios. Gabor me dá um disco do tamanho de uma rodela de linguiça calabresa de couro marrom-escuro, indistinguível do material usado em um dos meus pares de sapatos favorito. Ele até tem cheiro de couro. Ele é de couro. Assim como a empresa firmou a parceria com o chef Cantu para aperfeiçoar a carne, está em conversações com marcas de moda e fabricantes de automóveis para criar produtos com o couro cultivado em laboratório.

Carne ou não carne, eis a questão

Ethan Brown fala sobre como vai definir o sucesso para a Beyond Meat no curto prazo. “Eu quero estar no corredor de carne”, sonha. “Você vai ao supermercado e eles vendem carne em uma seção e proteínas de origem vegetal em outra seção. Por que eles estão penalizando as não carnes?”. Ele aponta o surgimento do leite de soja e sua eventual inclusão no corredor de laticínios – que ajudou a conduzir um aumento de 500% nas vendas desde 1997 – como seu modelo.
 
“Nossos primeiros adotantes são os veganos e algumas pessoas que preferem tofu, feijão e quinoa”, explica ele. “Todavia, o ponto ideal para nós é pessoas que estão simplesmente reduzindo seus consumos de carne. Eles ainda comem em fast-foods, mas sabem que não devem fazê-lo com muita frequência”.
 
Apelar para aquelas pessoas com uma imitação quase perfeita da carne faz sentido em um nível. Porém, também há um risco, diz Andras Forgacs. No mundo da animação e robótica, há um conceito chamado de “vale misterioso”, que afirma que, se um ser humano simulado se assemelha muito à coisa real, ele irá repelir pessoas. “Há também um vale misterioso de alimentos”, exemplifica Andras. “Até que se torne perfeita, [a carne artificial] vai ser assustadora”, explica. Enquanto carnes processadas como salsicha ou patê de fígado de ganso são bem aceitas, a Beyond Meat pode ser uma imitação um pouco próxima demais da realidade.
 
A Modern Meadow pode simplesmente se afastar do vale misterioso, ao invés de tentar atravessá-lo. “Eu tenho uma analogia que remonta à Organovo”, esclarece Gabor. “Nós nunca seremos capazes de imprimir um coração exatamente como ele aparece na natureza, mas nós não precisamos fazer isso. O que precisamos é criar um órgão que funciona tão bem como o coração, ou melhor, a partir de suas próprias células para que ele funcione em seu corpo. Isso nós podemos fazer. E o mesmo vale para a carne. O que nós vamos colocar em sua boca não é o que você obtém quando sacrifica uma vaca. Mas de todos os outros pontos de vista – valor nutricional, sabor – será exatamente como a coisa real. Você irá reconhecê-la como carne, contudo é um tipo diferente de carne”.
 
E se carne artificial não tem que imitar perfeitamente a carne real, ela pode ser ainda melhor do que a coisa real. As equipes da Beyond Meat e Modern Meadow imaginam carnes super-reforçadas com elementos como o ômega-3, ácidos graxos e vitaminas extras. “Você pode comer um sanduíche Beyond Meat Philly que reduz o colesterol e dá-lhe proezas sexuais”, divaga Brown. Ele está apenas parcialmente brincando.
 
Ainda que estejam avançando, nenhuma das duas empresas prevê que seu produto substitua inteiramente a carne, nem se veem como estando em competição uns com os outros. Ambas são alternativas que podem ser complementares. Um estudo de 2012 da Universidade de Exeter, do Reino Unido, calculou o grau em que as dietas devem mudar a fim de alimentar o mundo em 2050 e evitar uma mudança climática catastrófica. Os pesquisadores descobriram que o consumo médio mundial de carne teria de diminuir de 16,6% do consumo médio diário de calorias para 15%. Isso pode não parecer muito, mas se traduz em reduzir aproximadamente pela metade a quantidade de carne nas dietas ocidentais – uma grande mudança, mas concebível com alternativas de carne de alta qualidade.
 
Um tema atravessa todas essas visões do futuro: consumidores conscientes que têm o benefício de transparência total no processo de produção de carne. Brown considerou a instalação de câmeras no chão da fábrica da Beyond Meat e fazer a transmissão do vídeo online para que as pessoas possam ver por si mesmos o quão inofensivo é o processo. O contraste com as políticas secretas de matadouros industriais seria gritante.
 
Andras Forgacs imagina algo ainda mais dramático. Ele sonha com instalações de produção da Modern Meadow como zoológicos regionais. “Você precisa reabastecer a fonte de células periodicamente, então o que nós realmente precisamos é de alguns animais dos quais poderíamos tomar biópsias ocasionais. Eles seriam como mascotes. Outros que se espetaria uma vez por mês ou algo assim. Eles levariam vidas perfeitamente encantadoras”. As pessoas podem vir conhecer os animais enquanto eles pastam e, em seguida, fazer o seu caminho para o prédio principal e assistir a uma impressora gigante 3D transmitir as células em bandejas, onde elas iriam crescer para se tornar costeletas de porco e bifes.
“Você prefere visitar um matadouro e ver uma vaca ser morta, ter seu couro removido e ser estripada antes de ir comer um bife no jantar ou você prefere visitar um zoológico e uma fábrica que parece um pouco com a do Willy Wonka e depois ir comer carne logo em seguida?”, provoca.
 
É um sonho, entretanto Andras insiste que não é estranho. “Biofabricação já existe, e é inevitável que nas próximas décadas haverá aplicações além da medicina – aplicações para o consumidor, como a comida”. A questão é se o mundo vai estar preparado para elas. [PopSci]

 

 


Conheça os Cursos On-Line
Portal do Conhecimento