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Pesquisa acerca das verdadeiras origens históricas do Cristianismo
David Donnini

1 – O julgamento de Jesus: porque é uma fraude histórica?

Iremos considerar o episódio da prisão de Jesus, e a ação legal movida contra ele pelas autoridades judaicas. A análise de textos enfatizará as diferenças entre o grupo sinóptico (Evangelhos segundo S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas) e o quarto Evangelho (segundo S. João). Em que consistem estas diferenças?

Em primeiro lugar, notamos que o três Evangelhos sinópticos concordam na existência de um julgamento Judeu, e também nas acusações, testemunhas, e na sentença: uma condenação à morte pelo crime de blasfêmia, pois Jesus se declarou "filho de Deus", em público. Com respeito a este assunto já podemos levantar algumas objeções. De fato, um autor alemão, Dr. Weddig Fricke, escreveu um livro inteiro, cheio de observações críticas, mostrando a impossibilidade, de acordo com lei antiga Judia, de conduzir uma ação legal de acordo com as condições descritas pelos Evangelhos sinópticos. Vejamos algumas das suas afirmações mais significantes:

1 – As ações legais não se podiam desenrolar numa casa privada, mas apenas no lugar formal: na área do templo chamada de "Beth Din", o assento do Grande Sinédrio, para ofensas capitais;

2 – As ações legais não se podiam desenrolar à noite;

3 – As ações legais não se podiam desenrolar na véspera de um feriado;

4 – Uma sentença não podia ser proferida com base numa confissão extorquida;

5 – As sentenças de morte só poderiam ser proferidas pelo menos 24 horas depois da interrogação...

Para além de todas estas objeções importantes, temos que considerar que declarar-se a si mesmo como "o filho de Deus" provavelmente não era um crime de blasfêmia nem era uma ofensa importante. De fato, a expressão "filho de Deus" era muito comum e poderia ser usada para representar todos os seres humanos: todos os Judeus, de acordo com a Tora, eram filhos de Deus; em outro caso, o título poderia ser usado para caracterizar um homem devoto ou alguém que tinha sido iniciado numa condição de santidade e tinha tomado votos (como os "Nazaritas"). Há muitas expressões hebraicas como "filho da verdade", significando um homem particularmente honrado, "filho da luz", significando alguém que é iluminado espiritualmente, "filho da escuridão", significando um pecador endurecido, etc.

Estas e muitas outras considerações lançam sérias dúvidas sobre a hipótese de que os autores dos sinópticos, ao apresentarem a sua versão do julgamento, testemunharam uma verdade histórica, e ao invés ofereceram uma interpretação bastante pessoal com a meta específica de apoiar uma particular doutrina, ideologia e (porque não?) posições políticas.

Um golpe definitivo para a credibilidade histórica da apresentação dos sinópticos é dado pela versão do Quarto Evangelho; vejamos as diferenças:

1 – Os sinópticos dizem que Cristo foi prendido por uma multidão não muito bem identificada, que tinha sido enviada pelo Sumo Sacerdote, e eles não revelam a identidade do discípulo de Jesus que ofereceu resistência física. Pelo contrário, o quarto Evangelho fala de uma coorte de soldados e de um tribuno, assim nos dando informação precisa sobre lá ter estado presente uma força militar Romana de 600 homens (...!!!...), e diz claramente que a resistência foi oferecida por Pedro que, naquela ocasião, puxou da espada, e cortou a orelha de um dos guardas do Sumo Sacerdote. Destas circunstâncias podemos facilmente perceber que a ação militar tinha sido iniciada explicitamente por Pilatos. Caso contrário, 600 soldados Romanos nunca se teriam movido a meio da noite só para prender um pregador incomum cujo único crime era ter-se declarado "o filho de Deus".

2 – Os sinópticos dizem que assim que Jesus foi preso, foi levado imediatamente para a casa privada do Sumo Sacerdote Caifás. O quarto Evangelho, por sua vez, diz ele foi levado para a casa de Anás, o sogro do Sumo Sacerdote.

3 – Os sinópticos relatam que uma ação legal foi levantada contra Jesus na casa de Caifás, na qual ele manteve um silêncio obstinado, e não concordou em responder a qualquer pergunta, mas apenas deu uma pequena afirmação quando perguntado se ele era ou não o "filho de Deus". Neste momento o julgamento deverá ter chegado a um fim rápido e a sentença de morte pronunciada. Pelo contrário, o Quarto Evangelho não menciona qualquer ação legal Judaica; em vez de estar calado, é dito que Jesus respondeu às perguntas que as pessoas lhe fizeram e até mesmo ter participado numa discussão, mas desde que não havia nenhuma ação legal contra ele, claro que nenhuma sentença de morte deveria ter sido pronunciado . Tudo se parece com uma cena de uma sala de espera, antes de Jesus ser consignado ao cuidado de Pilatos; e podemos deduzir disto tudo que a ação inteira não foi concebida e iniciada pelos Judeus, mas antes pelos Romanos, possivelmente com a conivência das autoridades Judaicas.


2 – A sentença de morte: uma responsabilidade Judaica ou Romana?


O que enfatizamos até agora? Duas coisas: primeiro que os Sinópticos parecem ter resolvido apresentar todas as ações levadas contra Jesus (a sua prisão, julgamento e condenação) como sendo definitivamente a vontade dos Judeus. Não obstante, tendo descrito um julgamento claramente impossível e uma sentença irregular, e tendo mostrado forte censura em assuntos importantes que o quarto Evangelho fala sem relutância, despertam a razoável suspeita de que a sua versão muda propositadamente o significado dos eventos para os ter conforme algumas noções preconcebidas que se percebem bastante bem: por exemplo, os Judeus têm que parecer ser culpados de hostilidade contra Jesus, e os Romanos desculpados.

A segunda coisa que enfatizamos é a indicação de que toda a ação contra Jesus foi concebida e instigada principalmente pelos Romanos.

Podemos considerar o modo de como normalmente os blasfemadores eram tratado pelos Judeus: eram prendidos por soldados Romanos? Eram eles entregues a Pilatos, de forma a que ele os pudesse julgar de acordo com Lei Romana? Eram eles chicoteados pelos Romanos e depois crucificados? Nada disto! Os blasfemadores, reconhecidos como tal depois de um julgamento Judeu normal, eram apedrejados até à morte pelos Judeus, e os Romanos não se preocupavam de todo com estas atitudes.

Se compararmos as descrições dos julgamentos, como apresentadas nos quatro Evangelhos, podemos achar outra indicação significativa. Preste atenção ao que a análise do computador enfatizou quando a descrição do julgamento Judeu segundo Mateus (a ação legal irregular que ocorreu na casa do Sumo Sacerdote) foi comparado com a descrição do julgamento Romano, segundo Marcos (a ação legal que ocorreu na frente de Pilatos):



J = JULGAMENTO JUDAICO, MATEUS (Mt 26, 62-64)

R = JULGAMENTO ROMANO, MARCOS (Mc 15, 4-5, 2)


J – E, levantando-se o Sumo Sacerdote, disse-lhe:

R - E Pilatos o interrogou novamente, dizendo:


J – Não respondes coisa alguma...

R – Nada respondes?


J – ...ao que estes depõe contra ti?

R – Vê quantas coisas testemunham contra ti.


J – Jesus, porém, guardava silêncio.

R – Mas Jesus nada mais respondeu...


J – E, insistindo o Sumo Sacerdote, disse-lhe:

R – E Pilatos lhe perguntou:


J – Conjuro-te, pelo Deus vivo, que nos digas se tu és o Cristo...

R – És tu o Rei dos Judeus?


J – Disse-lhe Jesus: Tu o disseste;

R – E ele, respondendo, disse-lhe: Tu o dizes.


Não pode haver nenhuma dúvida sobre isto: o julgamento Judeu parece uma cópia do Romano, exactamente com as mesmas palavras pronunciadas; embora o Quarto Evangelho não mencione qualquer acção legal na casa do Sumo Sacerdote, como já notamos. Em resumo, os autores Sinópticos revelam a sua necessidade de descrever os Judeus como os que quiseram a morte de Jesus, e não os Romanos, que é a razão pela qual eles inventaram a existência de uma acção legal prévia na casa do Sumo Sacerdote, antes da que ocorreu mais tarde na presença de Pilatos.

Todas estas observações nos dão elementos decisivos de interpretação: o ponto de partida da tradição sinóptica é a necessidade explícita para virar a responsabilidade dos Romanos para os Judeus, talvez porque admitindo a responsabilidade dos Romanos teria havido implicações políticas inaceitáveis.



3 – O filho de Deus: aliás ...Jesus Barrabás.


Consideremos uma vez mais a razão que os autores Sinópticos aduzem para a sentença de morte dada em doses para Jesus: o ter-se declarado "filho de Deus"; esta formulação, até este momento, não está livre da suspeita de ser não mais que um mero pretexto inventado de maneira a virar a responsabilidade dos Romanos pela condenação para os Judeus. Aqui também podemos identificar um tipo importante de censura usada pelos autores; pois a relutância dos que nunca explicaram certas perguntas (e mantiveram uma espécie de conspiração de silêncio), fazê-lo torna-se assim muito significante. Praticamente, temos agora que adivinhar que termos o Sumo Sacerdote teria empregue no idioma aramaico – que era falado na Palestina naqueles tempos – para perguntar a Jesus se ele era o "filho de Deus", de maneira a o apanhar e acusar de blasfémia (de acordo com a versão dos sinópticos, claro está).

Naquela altura, todos sabiam que o nome de Deus não podia absolutamente ser pronunciado pelos Judeus, dado que isso era, e ainda é, um significativo sacrilégio. Ninguém, à excepção do Sumo Sacerdote no Dia da Reconciliação, poderia pronunciar o nome Jeová; assim sendo, toda a vez que havia necessidade de se dirigir a Deus ou se referir a Ele, os Judeus substituíam por nomes como Adonai, Eloah, Supremo, o Senhor, Pai, etc. Este último, "Pai", o qual em aramaico é "Abba", era o mais comummente falado por Jesus e é comummente usado nos textos dos Evangelhos, como por exemplo: "E disse: Abba, Pai, todas as coisas te são possíveis..." (Mc 14, 36); "...quando vier na glória do seu Pai, com os santos anjos..." (Mc 8, 38); " ...que o vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas." (Mc 11, 25); "Graças te dou, ó pai, Senhor do céu e da terra..." (Mt 11, 25). Tais exemplos são muito numerosos nos Evangelhos.

Consequentemente, tanto Jesus como o Sumo Sacerdote, em vez de dizerem "filho de Deus", teriam usado certamente a expressão "filho do Pai", que foi mantida em Latim como o usual "filius Patris", que no idioma aramaico é representada pela palavra "bar", que significa "filho", e "Abba", que quer dizer "pai"; isto é, a expressão inteira é "bar Abba", a qual pode inclusivamente ser pronunciada sem nenhuma pausa, e assim parece-se com a palavra "Barabba" (há numerosos casos semelhantes: Barnabas – Barnabé – quer dizer "o filho do Mestre", Bartolomeu quer dizer "o filho de Ptolomeu", etc.) Assim, toda a expressão que nós conhecemos como "Jesus, o filho de Deus" pode aparecer em aramaico como "Yeishu bar-Abba".

Estou seguro de que qualquer leitor, neste momento, apercebendo-se desta estranha coincidência, estará um pouco surpreendido. Claro que me estou a referir à semelhança (podemos até mesmo dizer igualdade) entre a expressão "o filho de Deus", tal como soa em aramaico, e o nome do prisioneiro que foi liberado no lugar de Jesus, que é Barrabás (Barabbas, no original). Ainda para mais, o nome daquele sujeito afortunado não era realmente Barrabás: os Evangelhos afirmam que ele era apelidado Barrabás. O que significa isto? Deveríamos acreditar que ele também era "filho de Deus"? Porém, qual era o seu verdadeiro nome?

Para podermos responder esta pergunta é preciso que se saiba que alguns velhos manuscritos do Evangelho segundo S. Mateus, datados do quarto século, chamam este sujeito não só pelo apelido mas até lhe atribuem o nome de Jesous Barabbas (o manuscrito tendo sido escrito em Grego antigo). Na realidade, os autores fizeram nada mais que transcrever em caracteres Gregos a expressão hebraica "Yeishu bar-Abba", cujo significado nós já sabemos: "Jesus, o filho de Deus" (todos os que estiverem relutantes em acreditar nisto devem ver o "Novum Testamentum Graece et Latine", por Augustinus Merk, editado em 1933 pelo Instituto Bíblico Pontifício, página 101, onde a frase que é comummente apresentada "E tinham então um preso, bem conhecido, chamado Barrabás." (Mt 27, 16) está escrita "E tinham então um preso, bem conhecido, Jesus chamado de Barrabás.").

O que temos nós a dizer a isto?

Porque é que os tradutores fizeram de Barrabás um anónimo do quarto século em diante? Realmente, porque é que eles nos deixaram acreditar que Barrabás é o seu nome verdadeiro? O que diabo está escondido atrás da curiosa circunstância que durante a acção feita pelos Romanos, duas pessoas foram trazidas à presença de Pilatos: Jesus, o filho de Deus (ou seja, Yeishu bar-Abba), que foi condenado à morte, e Jesus Barrabás (que é exactamente o mesmo), que foi libertado?

Porque é que os Cristãos sempre foram mantidos na escuridão sobre o facto de que o aramaico "Barrabás" é o equivalente da moderna expressão "filho de Deus"?

Como podemos ver, o assunto começa a levantar alguns enigmas curiosos. Mesmo assim, entre as muitas perguntas que nós não podemos responder, uma, pelo contrário, parece que podemos: podemos estar certos de que a narração do Evangelho da Paixão de Cristo foi censurada, e está cheia de truques literários inventados de propósito para distorcer completamente alguns aspectos importantes da verdade histórica sobre o modo de como Jesus foi preso, julgado, condenado, e executado; e sobre as razões por que todas estas coisas aconteceram.

Por favor não pense que há algum truque escondido atrás do que dissemos até agora, baseado em jogos de palavras, porque se tais jogos de palavras realmente existem, não somos nós os culpados, mas os que escreveram os Evangelhos ou, em todo caso, os retocou depois.



4 – A fraude histórica: os Judeus condenam Jesus, mas são os Romanos que o executam.


Outras indicações importantes, que tendem a desmistificar a historicidade da narração do Evangelho da Paixão de Jesus, dizem respeito à explicação tradicional da presumida necessidade dos Judeus de entregar Jesus às mãos de Pilatos. Normalmente é dito que os Judeus não tinham qualquer direito para executar qualquer sentença de morte. Como foi possível afirmar tal asneira? Os Evangelhos mostram que é mais um truque grosseiro; porque nós sabemos que:

1 – Herodes executou centenas de Judeus;

2 – A famosa adúltera que estava prestes a ser apedrejada pelos Judeus sobreviveu graças a Jesus, que disse: "...He isso está sem pecado entre você, lhe deixe lançar o primeiro apedreje a ela...";

3 – São Paulo estava presente no apedrejamento do primeiro mártir Cristão, Estevão;

4 – S. João Baptista foi executado pelos Judeus;

5 – Depois da morte de Jesus, o Sinédrio ameaçou os apóstolos com a sentença de morte;

6 – O apóstolo S. Tiago foi apedrejado pelos Judeus em Jerusalém;

7 – O mesmo Jesus, de acordo com o que os Evangelhos afirmam em muitas circunstâncias diferentes, correu o risco de ser apedrejado pelos Judeus...

Precisamos de continuar? Há evidência mais que suficiente para as execuções dos Judeus, pelos Judeus, nos mesmos Evangelhos. Não obstante, no caso de Jesus, diz-se surpreendentemente que os Judeus não tinham nenhum direito de executar uma sentença de morte e tiveram de pôr Jesus, o blasfemador, nas mãos de Pilatos.

Todas estas coisas testemunham uma simples verdade: a necessidade desesperada e inescapável dos autores dos Evangelhos de demonstrarem que, apesar da forma de uma típica execução Romana (a crucificação), os Romanos estavam completamente inocentes de morte de Jesus uma vez que só os Judeus eram culpados disso, pois eles eram os seus inimigos reais. Essa é a razão porque a absurdidade histórica de um procurador Romano implorando ao povo Judeu para libertar o pregador foi inventada.



5 – Como nasceu o anti-semitismo.

De acordo com a versão histórica "Cristã", o "praefectus Iudaeae Pontius Pilatus" (o prefeito da Judeia, P. Pilatos) foi compelido a libertar um bandido, talvez um revolucionário, como os Evangelhos o descrevem, em vez de um pregador, porque as pessoas preferiram Barrabás a Jesus. Ele até tentou implorar aos Judeus, mas eles insistiram, gritando: "Seja crucificado! Seja crucificado!" e estavam resolutos na sua decisão de libertar o bandido (o Quarto Evangelho diz o "ladrão") e deixar os Romanos executar o homem que é dito ter curado pessoas cegas e leprosas. É, claro, uma confusão absurda: pessoas razoáveis achariam muito mais lógico que o ladrão fosse executado, e uma suspensão da execução iria garantir o pregador, e não o contrário; também por uma posição autoritária ter sido levada pelo procurador em vez de pelos suplicantes; também para as pessoas terem desejado libertar o curandeiro e pregador, em lugar do ladrão... Algo de fraudulento está escondido atrás desta representação!

Quantos cristãos empreenderam o estudo deste período histórico? Quantos se perguntaram se o costume presumido de libertar um prisioneiro por ocasião do feriado Judeu da Passagem realmente existiu

ou não? Quantos leram os trabalhos dos autores Judeus Philo de Alexandria e Flávio Josefo, contemporâneos de Jesus, ou até mesmo sabem que eles existem? Estes dois autores, que descrevem em detalhe costumes e eventos na antiga Palestina, nunca mencionam tal costume, e sempre descrevem Pilatos como um procurador cínico e duro que nunca pediu permissão a ninguém e que, inclusivamente, nunca se submeteu à vontade popular dos Judeus mas, pelo contrário, sempre regeu com mão forte e uma crueldade atroz. O Pilatos dos Evangelhos, na frente da multidão gritando, declara-se derrotado e anuncia sem culpa: "...lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo: considerai isto"! e então liberta um homem que muitos teólogos querem identificar como um revolucionário, um dos que afrontou o poder dos invasores Romanos.

Neste momento, foi posto na boca dos Judeus uma sentença que é um real manifesto ideológico: "E, respondendo todo o povo, disse: o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos" (Mt. 27, 25). Este é o ponto de partida de um anti-Semitismo de dois mil anos. Os Judeus do tempo de Jesus pareciam ter ideia do seu destino e, o que é mais curioso, prontos aceitá-lo: a guerra terrível contra os Romanos, a destruição de Jerusalém e do Templo, o massacre de centenas de milhares deles, a Diáspora, as perseguições perpetradas pelos Cristãos, a Inquisição, o nome infame de "Judeus pérfidos", dois mil anos de opressão e exterminação...

Bem, aqui está uma confirmação dramática; os autores que compuseram os quatro textos do Evangelho chamados de canónicos pela Igreja (significando que eles são os únicos que comprovam a verdade) tiveram sem dúvida uma ideia fixa: tinham que desacreditar a raça hebreia e cobri-la com vergonha por ter querido a morte do "filho de Deus"; Assim santificando e desculpando a atitude historicamente hostil do Cristianismo para com o Judaísmo. O racismo foi gerado e nutrido por esta inconveniente afirmação do Evangelho segundo S. Mateus. Não obstante, se a infâmia de ter morto o Senhor pertence a alguém, não é aos Judeus, mas aos Romanos, disso podemos estar seguros. De facto, eles tinham invadido a Palestina, incorporando-a no seu império, e feito os seus habitantes súbditos do imperador; eles reprimiram meticulosamente todas as sublevações nacional-religiosas, especialmente num país muito difícil subjugar; um país onde, durante muitos séculos, profecias tinham falado de um rei-Messias, filho de David, que devia repetir os feitos do antigo soberano que tinha criado o Reino Unido das doze tribos de Israel; um país onde movimentos messiânicos (Essénios e Zelotas) tinham surgido e fortalecido como nunca antes.



6 – O Messias esperado?

O que diabo estavam os autores dos Evangelhos interessados em esconder com a sua adulteração da verdade histórica? Isso é exactamente o que estamos a tentar descobrir. A dificuldade é que o homem que os soldados de Pilatos tinham prendido nunca tinha pretendido fundar uma nova religião não-Judaica; ele nunca pensou em considerar o antigo acordo entre Jeová e o seu povo cancelado; nem ele nunca pregou aos não-circuncidados (há pelo menos duas ocasiões explícitas no Novo Testamento nas quais Jesus fala da sua inequívoca resolução de não pregar aos não-Judeus, mas só "...ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel." (Mt 10, 6); ele nasceu e cresceu Hebreu, e como Hebreu viveu e morreu, absolutamente determinado permanecer como um.

"Cristo" (Christos = ungido, um termo que traduz a palavra aramaica Mashiha = Messias = ungido em Grego) foi feito o alvo dos Romanos de propósito, e os Romanos julgaram e executaram um assim chamado porque um dos movimentos messiânicos dos dias de Jesus (que eram semelhantes aos dos Essénios, se não idênticos aos dos Essénios que estavam instalado em Kirbeth Qumran, os autores dos famosos e controversos Manuscritos do Mar Mortos) identificava na sua pessoa o predestinado de quem as profecias messiânicas falavam: o escolhido de Deus, o filho de David, o ungido de Jeová, que iria devolver a casa de Israel aos seus filhos, retirando-a dos usurpadores pagãos, da odiada família dos monarcas Herodianos, e da corrupta casta sacerdotal dos Saduceus.

Tal homem não podia terminar os seus dias sem ser na forca Romana, a cruz, com uma inscrição tri-lingual: "Melek hay-Yehudim – Basileus ton Ioudaion – Rex Iudaeorum (= Rei dos Judeus)", cujo significado é mais que evidente: condenado à morte porque ele foi reconhecido culpado de rebelião contra a autoridade imperial, uma vez que ele tentou restabelecer a coroa de David no trono de Israel.

De facto, mil anos antes, o primeiro homem a reinar sobre as doze tribos unidas de Israel foi David, e também ele fez de Jerusalém a sua capital, e lá ele queria construir um templo enorme para o Senhor (não que ele tivesse realizado este projecto, mas antes o seu filho Salomão). David foi o primeiro Messias (Rei ungido) de Israel, e para os Judeus a ideia de que o Messias uniu o poder espiritual com o político não causa nenhuma repugnância; pelo contrário, eles têm nenhum problema em aceitar que ele possa até mesmo ser um guerreiro que luta e derrota todos os inimigos da nação de Deus.

O termo Messias vem da típica cerimónia de investidura real: unção ou consagração (Mashiha = ungido). O rei de Israel não tinha apenas distinção política, ele também era o favorito de Deus, dado que ele tinha uma particular fé e devoção para com o Senhor de Israel; ele recebia das mãos do Sumo Sacerdote o unguento de mirra, canela doce, nardo, cássia, e óleo de azeitona (Êxodo 30, 23-24) e com isto ele era declarado "ungido do Senhor", o que significa a representação terrestre da soberania da nação Judia, a qual só é devida a Jeová.



7 – "Eis o ungido de Jeová, Rei dos Judeus"

Consideremos um episódio famoso na história dos Evangelhos, da qual a típica festividade Cristã chamada Domingo de Ramos é derivada: no Domingo antes da Páscoa todo o mundo Cristão celebra a entrada de Jesus em Jerusalém, quando ele, montando um burro, foi acolhido por uma multidão aplaudindo e por um coro de hosanas. O episódio é chamado de Entrada Messiânica, e este nome não podia ser mais apropriado: "Bendito o REINO DO NOSSO PAI DAVID, que vem em nome do Senhor." (Mc 11, 10). "Bendito O REI QUE VEM EM NOME DO SENHOR" (Lc 19, 38). No dia seguinte, ouvindo uma grande multidão, que viera à festa, que Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palmeiras, e saindo-lhe ao encontro, e clamavam: Hosana: BENDITO O REI DE ISRAEL, QUE VEM EM NOME DO SENHOR. E achou Jesus um jumentinho, e assentou-se sobre ele, como está escrito: Não temas, ó filha de Sião (=Jerusalém); eis que O TEU REI VEM, assentado sobre o filho de uma jumenta." (Jo 12, 12-15). O evangelista João faz uma referência explícita a uma profecia Bíblica na qual se fala de um libertador messiânico; o profeta Zacarias diz que a Jerusalém conquistada pode exultar porque o seu Rei, montando um jumento, está vindo para expulsar todos os opressores estrangeiros: "...Rejoice grandemente, O filha de Zion; grite, filha de O de Jerusalém: veja, cometh de Rei de thy até thee: ele é justo, e tendo salvacção; humildemente, e montando em um asno, e em um potro o potro de um asno...". (Zacarias 9, 9).

Como podemos ver, Jesus foi acolhido por toda a gente como o libertador esperado, como o filho de David, como o Rei de Israel; lendo os episódios, podemos deduzir facilmente não só o valor religioso de Jesus, mas também o seu valor político. Tanto Jesus como os evangelistas poderiam ter negado a interpretação oferecida pelas pessoas, se tal quisessem (isto no caso de Jesus ou os evangelistas tivessem tido a específica intenção de especificar que a sua missão não era política mas apenas espiritual). Porquê, então, nos contaram eles que a entrada de Jesus em Jerusalém era o verdadeiro cumprimento da profecia messiânica, se eles tivessem verdadeiramente pretendido distinguir entre a missão espiritual de Jesus e a missão política do esperado Messias? Porque teimaram eles em o chamar de "filho de David" tantas vezes (doze vezes nos Evangelhos), assim atestando o seu inteiro direito à coroa de Israel, como um descendente da dinastia do antigo fundador do reino?

Os Evangelhos sinópticos contam outro episódio famoso: Jesus ungido na aldeia de Betânia. O que é muito curioso é que os autores dos sinópticos parecem determinados em disfarçar o verdadeiro significado do episódio. Consideremos os seguintes elementos:

1 – Os protagonistas são todo anónimos, à excepção do anfitrião, que é identificado como um Fariseu chamado Simão, e a estrela da cena é simplesmente "uma mulher": "...veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, com unguento de nardo puro, de muito preço, e, quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça." (Mc 14, 3);

2 – A altura é após a entrada messiânica, para Marcos e Mateus, ou muito antes, para Lucas;

3 – Lucas não nomeia a cidade: "E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa, em casa do Fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; ...começou a regar os pés dele com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento " (Lc 7, 37-38).

Muitos teólogos tentam minimizar as diferenças propondo a fraca desculpa de que o episódio em Lucas não é o mesmo. Como em muitos outros casos, os autores dos sinópticos submetem os eventos a pesada censura; de fato, se lermos a versão de João do episódio, algo de surpreendente acontece: todos os protagonistas têm nomes e a altura é logo antes da entrada messiânica: "...Marta servia, e Lázaro era um dos que estava à mesa com ele. Então Maria, tomando um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos." (Jo 12, 2-3).

Nós até notamos que esta mulher pobre, a quem Lucas chama de "uma pecadora", tinha nas mãos um vaso de alabastro cheio de um arrátel de nardo muito precioso. Pode ser que hoje muitos leitores não façam a mínima ideia do que isso significa: as mulheres pobres têm normalmente grandes quantias dos mais caros perfumes à mão? O evangelista João declara que valia trezentos dinheiros, que é... tipo milhares de dólares!

Bem, então ela quebrou o vaso de alabastro e verteu o nardo na cabeça de Jesus, ou nos seus pés. E aqui está a pista para a circunstância: "E alguns houve que em si mesmos se indignaram, e disseram: Para que se fez este desperdício de unguento? Porque podia vender-se por mais de trezentos dinheiros, e dá-lo aos pobres. E bramavam contra ela ...E Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os principais dos sacerdotes, para lho entregar. E eles, ouvindo-o, folgaram e prometeram dar-lhe dinheiro; e buscava como o entregaria em ocasião oportuna. (Mc 14, 4-11).

O que raios ela fez para incitar a ira todo a gente? Como poderia ela ter induzido aquela reação em Judas? Poderemos acreditar que o desperdício de perfume era verdadeiramente a razão por que Judas se convenceu que era melhor trair o seu Senhor Jesus? Ou devemos nós acreditar que alguém nos tem tentado gozar, e esconder de nós qualquer entendimento do real significado do episódio?

Estou seguro que muitos leitores, neste momento, notaram a sucessão de eventos:

1 – Jesus Cristo é ungido com nardo, como um novo Messias;

2 – Alguém fica desapontado com aquela unção pública;

3 – Judas, o traidor, corre para os sacerdotes principais;

4 – No dia Jesus Cristo faz uma entrada messiânica em Jerusalém, durante a qual as pessoas o acolhem como o Rei de Israel;

5 – Na véspera do feriado, à noite, Jesus reúne os seus discípulos, providos com espadas, no Monte das Oliveiras. Eles esperam que a sua acção seja seguida pelos muitos milhares das pessoas que vieram a Jerusalém para a grande Páscoa dos Judeus;

6 – Seiscentos soldados Romanos, informados por Judas do lugar e horas da assembleia revolucionária, chegam, e, depois de uma pequena luta, prendem Jesus;

7 – O homem é julgado pelos Romanos e condenado à morte;

8 – Ele é crucificado por ser um rebelde.

Assim, e quanto à ação de Maria? Agora a resposta é muito simples: era uma falsa unção Messiânica, uma declaração pública da chegada do Messias de Israel, o Rei dos Judeus. Essa é a razão para as reações dos de que não concordavam com as visões e opiniões movimentos Messiânicos, como os Essénios e Zelotas. Muitas pessoas, na Palestina de dias de Jesus, pensavam que as idéias dos movimentos Messiânicos eram muito perigosas: "Se o deixámos assim, todos crerão nele, e virão os Romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação." diz um dos sacerdotes principais, e o Sumo Sacerdote continua: "nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação" (Jo 11, 48-50).

E acerca de Judas?

O que é mais lógico que entender como ele estava preocupado quando percebeu que nem toda a gente em Jerusalém concordava com os planos revolucionários dos partidários de Jeová? Por ocasião do banquete na casa de Simão, quando Jesus foi ungido na presença de sacerdotes e Fariseus, ele viu quanta resistência política havia à idéia de uma revolução Messiânica. Essa é a razão porque começou a acreditar seriamente que a façanha não ia ter nenhuma esperança de sucesso, e o perigo de ser preso e crucificado pelos Romanos ser agora muito real. De qualquer maneira, não teve sucesso em salvar a sua vida: os outros partidários que conseguiram escapar da prisão montaram-lhe uma armadilha; e alguns horas depois ele foi morto e as suas vísceras espalhadas no solo como uma advertência para todos os traidores.



8 – S. Paulo, o inventor da nova religião Cristã.

Pouco depois da execução do aspirante a Messias, um certo Saulo, um Hebreu que nasceu e cresceu na Anatólia, e estava acostumado a viver junto com pagãos, e que preferia concordar com não-circuncidados a colidir com eles, percebeu a louca periculosidade da interpretação tradicional e radical que os Essénios e os Zelotas faziam das profecias Messiânicas; de acordo com eles, o conflito direto com o enorme poder de Roma e dos aliados Hebreus (a casta dos Saduceus e a família de Herodes) conduziria à vitória por causa do apoio do próprio Jeová.

Saulo, a quem nós chamaremos S. Paulo, estava completamente consciente da possibilidade de que os Romanos poderiam depressa se fartar desta pequena mas indomável província do seu império, e podiam decidir acabar com isto. Até mesmo os Saduceus compartilhavam essa opinião, dado que eles estavam numa posição muito confortável: protegidos pelos Romanos, sendo também ricos e tendo grande influência e prestígio na sociedade Judaica. Já citamos as palavras do Sumo Sacerdote, que falou do seu medo em relação à possível reacção dos Romanos contra o fundamentalismo Judeu. Ele teve razão: o medo que os Saduceus e Paulo e o Fariseus tinham, tornou-se literalmente verdadeiro quando, no ano 70, os Romanos realmente decidiram acabar com a Judeia. Eles massacraram milhares e milhares de Judeus, destruíram Jerusalém, saquearam o templo e arrasaram-no.

A princípio, compartilhando as visões dos conservadores Hebreus, Saulo o Fariseu era um obstinado perseguidor dos perigosos partidários das seitas Messiânicas (pseudónimo dos cristãos; por favor note que a palavra "cristão" é simplesmente a tradução para o Grego do Hebreu "messiânico"); então, com o passar do tempo, ele percebeu que desta maneira o fanatismo nacional-religioso das seitas Essénias e Zelotas não refrearia. Infelizmente, ainda hoje em dia vemos que não há nenhuma arma que possa levar a melhor o fundamentalismo étnico-religioso.

Assim, Saulo convenceu-se que opor armas à pureza étnico-religiosa é inútil; só se arrisca a obter o efeito oposto; ideias devem ser lutadas com ideias. De fato, o fanatismo étnico-religioso satisfaz uma necessidade psicológica que está diretamente relacionada com sentimentos inconscientes de identidade e orgulho popular; a única coisa que pode competir com isso é outra imagem psicológica, outra ideia feita à medida para satisfazer as necessidades inconscientes de pessoas, para lhes dar uma identidade e um respeito próprio que é mais que o sentindo tribal de fazer parte de um determinado grupo.

Então, o único modo de lutar contra a perigosa esperança messiânica da salvação nacional-religiosa de Israel era criar uma nova esperança messiânica de salvação, ainda maior, ainda mais susceptível às necessidades psicológicas do povo: a ideia de uma salvação espiritual universal, de um Messias que não iria salvar a pequena casa de Israel mas toda a humanidade, especialmente os pobres, os humildes, os oprimidos, os fracos, os doentes, os sofredores, da sua sujeição ao mal.

Assim, Saulo inventou a nova imagem do Messias (fictício, mas ganhador): Jesus Cristo, ressuscitando da morte. Ele compôs esta imagem enxertando sobre os restos do velho Messias (real, mas politicamente fracassado), que continuava a incitar o ardor e a esperança dos seus seguidores irredutíveis, o carácter do Salvadores espirituais orientais, como o Grego Soter, o persa Saoshyant, e o indiano Buda.

Foi a composição teológica mais genial posta em prática desde o tempo em que a história começou. Era o encontro sincrético de vários componentes religiosos: Hebreu, Egípcio, Helénico, Persa e Indiano. Destinado a tornar-se o guia espiritual do subsequente desenvolvimento de toda a civilização ocidental. Conseguiu mesmo derrubar o Império Romano pagão (ao contrário sua contraparte histórica).

Não que Saulo se convertesse no caminho para Damasco, mas a idéia Cristã revelou uma nova dimensão, não apenas para o futuro de Israel, mas para o futuro da humanidade.

Quando esta revisão teológica e ideológica foi feita, originou uma resposta muito mais popular que a fé original no aspirante Messias de Israel e seus seguidores; e os tradicionalistas Hebreus (devotos à sua ideia nacional-religiosa) foram vistos como um obstáculo para o desenvolvimento da nova ideia supra-nacional. Além disto, também a imagem do aspirante Messias histórico dos Judeus e a sua imolação patriótica se tornaram um obstáculo para a imagem do Messias universal, apolítico, somente espiritual, que prometeu salvação no reino dos Céus, não na terra.

Os novos Cristãos também foram perseguidos pelos Romanos porque eles não podiam esquecer que o Messias original era um perigoso mártir do movimento de libertação, que podia até mesmo contagiar outras nações súbditas do seu Império com as suas ideias.

É esta a razão porque os Evangelistas foram absolutamente compelidos a distanciar-se dos Judeus e transformar a responsabilidade dos Romanos na responsabilidade dos Judeus. É devido a isto que as histórias dos Evangelhos estão cheias de truques, com o propósito de reajustar a imagem do Messias na nova teologia.

Eis como os Evangelhos foram concebidos e escritos.
 

 


 


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