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Quais São os Verdadeiros Objetivos dos "Cientistas" do Criacionismo?
Por Lenny Flank


Embora recentemente os criacionistas tenham tentado retratar a sua perspectiva como sendo puramente secular e científica (numa tentativa de a legislar e introduzir na sala de aula), dentro das suas próprias fileiras eles sempre foram muito cândidos no que diz respeito à base religiosa para a sua "ciência", e nunca esconderam a sua crença de que, em todos os lugares em que existem conflitos entre a ciência e a Bíblia, a ciência tem de ser rejeitada a priori:


"Estudantes das ciências biológicas que acreditam na Bíblia possuem um guia para a sua interpretação dos dados disponíveis, o registro da Criação Divina contido em Gênesis." -- Robert Kofahl e Kelly Segraves (Kofahl e Segraves, 1975, p. 69)

"O estudante cristão das origens aborda a evidência da geologia e da paleontologia com o registro bíblico em mente, interpretando essa evidência de acordo com os fatos divinamente revelados na Bíblia." -- Robert Kofahl e Kelly Segraves (Kofahl e Segraves, 1975, p. 40)

"A ciência da criação começa com pressuposições completamente bíblicas e interpreta os dados de toda a realidade, incluindo a ciência, dentro desse enquadramento." -- Donald Chittick (Rohr, 1988, p. 156)

"Se a Bíblia é a Palavra de Deus -- e é -- e se Jesus Cristo é o Criador infalível e omnisciente -- e Ele é -- então tem de se acreditar firmemente que o mundo e todas as coisas nele foram criadas em seis dias naturais e que as longas eras geológicas da história evolucionária realmente nunca ocorreram." -- Henry Morris (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. 251)

"É precisamente porque a revelação bíblica é absolutamente autoritativa e clara, que os fatos científicos, corretamente interpretados, darão o mesmo testemunho que os da Escritura." -- Henry Morris (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. 15)

"É mais produtivo encarar a Bíblia literalmente e depois interpretar os fatos reais da ciência dentro do seu enquadramento de revelação." -- Henry Morris (Morris, Troubled Waters of Evolution [Águas Problemáticas da Evolução], 1974, p. 184)

"Embora os criacionistas, na sua qualidade de cientistas, tenham de estudar tão objetivamente quanto possível os dados reais da geologia, na nossa qualidade de cristãos crentes na Bíblia também temos de insistir que esses dados sejam correlacionados dentro do enquadramento da revelação bíblica." -- Henry Morris (Morris, Creation Research Society Quarterly [Trimestral da Sociedade de Pesquisa da Criação], dezembro de 1974, p. 173, citado em Plaintiff's Pre-Trial Brief, McLean v. Arkansas, 1981)

"Estamos completamente limitados àquilo que Deus achou por bem dizer-nos, e esta informação é a Sua Palavra escrita. Este é o nosso manual na ciência da Criação." -- Henry Morris (Morris, 1966, p. 114)

"O cristão instruído sabe que as evidências para uma completa inspiração divina das Escrituras têm muito mais peso do que as evidências para qualquer fato da ciência. Quando confrontado com o testemunho bíblico consistente sobre um Dilúvio universal, o crente certamente tem de aceitá-lo como sendo inquestionavelmente verdadeiro." -- John Whitcomb e Henry Morris (Whitcomb e Morris, 1961, p. 118)

"A evidência final e conclusiva contra a evolução é o fato de a Bíblia a negar. A Bíblia é a Palavra de Deus, absolutamente inerrante e verbalmente inspirada." -- Henry Morris (Morris, 1967, p. 55)

"Nós acreditamos que a Bíblia, como Palavra de Deus verbalmente inspirada e completamente inerrante, dá-nos o verdadeiro enquadramento de interpretação histórica e científica... Tomamos este enquadramento revelado da história como o nosso dictum básico, e depois tentamos ver como todos os dados pertinentes podem ser compreendidos neste contexto." -- John Whitcomb e Henry Morris (Whitcomb e Morris, 1961, p. xxvi)

"Embora realcemos os aspectos científicos do criacionismo -- especialmente nos nossos debates e seminários nos campus [das universidades] -- também salientamos o fato de que toda a ciência verdadeira apóia o criacionismo bíblico... Acreditamos que a palavra inerrante de Deus tem de prevalecer sempre sobre as especulações históricas daquilo a que a bíblia chama 'a falsamente chamada ciência'." -- Henry Morris (Morris, Back to Genesis [De Volta ao Gênesis], outubro de 1995)

"A única conclusão que concorda com a Bíblia é, claro, que Gênesis 1-11 é a verdade histórica real, independentemente de quaisquer problemas científicos ou cronológicos envolvidos." -- Henry Morris (Morris, 1972, p. 82)

Morris, o mais prolífico dos autores criacionistas, aponta aqui a dicotomia básica que é evidente em todos os escritos da "ciência" do criacionismo: a Bíblia não pode estar errada, por essa razão todos os fatos científicos têm de ser "interpretados" para se ajustarem ao enquadramento bíblico. E se existem quaisquer conflitos aparentes entre as histórias bíblicas e os dados da ciência moderna, então é a Bíblia que tem prioridade.

Foi principalmente devido aos esforços de Morris e do seu Institute for Creation Research [Instituto para a Pesquisa sobre a Criação, abreviadamente: ICR] que a "ciência" do criacionismo começou a substituir as anteriores objeções puramente religiosas à teoria da evolução. "O modelo da criação para as origens e a história", escreve Morris, "pode ser usado para correlacionar os fatos da ciência pelo menos tão efetivamente como o modelo evolucionista." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. iv) O livro Scientific Creationism [Criacionismo Científico], de Morris, tentou apresentar um "modelo científico" da criação que era, segundo argumentava o ICR, apropriado para uso nas salas de aula das escolas públicas:

 

"O objetivo de Scientific Creationism (Public School Edition) [Criacionismo Científico (Edição para a Escola Pública)] é tratar todos os aspectos mais pertinentes do assunto das origens e fazê-lo somente numa base científica, sem referências à Bíblia ou a doutrina religiosa." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. iv)

"Nós reconhecemos francamente que Scientific Creationism [Criacionismo Científico] é um livro projetado para realçar o conceito da criação sobre as origens. Porém, é científico e objetivo na sua abordagem. Não faz qualquer referência à Bíblia ou a outra literatura religiosa como sua autoridade, limita-se aos fatos da ciência." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. v)

A afirmação de Morris, de que a literatura da "ciência" do criacionismo não usou a Bíblia como autoridade, não é de fato completamente verdadeira. Tanto o seu livro Scientific Creationism [Criacionismo Científico] como o livro Evolution? The Fossils Say No! [Evolução? Os Fósseis Dizem Não!] do seu colega Duane Gish, também membro do ICR, foram publicados pelo ICR em duas versões separadas. Uma, a "Edição Geral", continha todas as citações bíblicas e argumentos religiosos contra a teoria da evolução. A outra, a "Edição para a Escola Pública", omitiu todas as referências religiosas, numa tentativa transparente para torná-la apropriada para uso nas escolas públicas, apagando o seu conteúdo e objetivos obviamente religiosos. Por exemplo, na Edição Geral do livro de Gish, encontramos esta passagem:


"Os proponentes deste modelo para a interpretação da história geológica acreditam que a interpretação correta de Gênesis requer a aceitação de uma criação que se prolonga por seis dias de 24 horas cada. Além disso, as genealogias apresentadas em Gênesis e noutras partes da Bíblia, crê-se, restringiriam o tempo da criação para algo entre seis mil e cerca de dez mil anos atrás." (Gish, 1972, Edição Geral, p. 60)

Na Edição para a Escola Pública, porém, as referências religiosas foram discretamente apagadas. Essa passagem agora diz:


"Os proponentes deste modelo para a interpretação da história geológica acreditam que a criação prolonga-se por seis dias de 24 horas cada. Além disso, crê-se que a criação ocorreu há milhares de anos, em vez de ter ocorrido há bilhões de anos atrás." (Gish, 1972, Edição para a Escola Pública, p. 57)

De forma similar, na Edição Geral, Gish declara:
 

"Depois de muitos anos de estudo intenso do problema das origens, tanto de um ponto de vista bíblico como científico, estou convencido que os fatos da ciência declaram que a criação especial é a única explicação lógica para as origens. 'No princípio, Deus criou'..." (Gish, 1972, Edição Geral, p. 186)

Na Edição para a Escola Pública, que obviamente é suposto ser secular, científica e não-religiosa, esta passagem foi alterada e aparece assim:
 

"Depois de muitos anos de estudo intenso do problema das origens de um ponto de vista científico, estou convencido que os fatos da ciência declaram que a criação especial é a única explicação lógica para as origens." (Gish, 1972, Edição para a Escola Pública, p. 174)

Finalmente, na Edição Geral do livro de Gish, também encontramos esta declaração:
 

"Não sabemos como Deus criou, que processos Ele usou, pois Deus usou processos que não estão operando agora em nenhum lugar do universo natural. É por esta razão que nos referimos à Criação Divina como criação especial. Nada podemos descobrir através de investigações científicas sobre os processos criativos usados por Deus." (Gish, 1972, Edição Geral, p. 42)

Na Edição para a Escola Pública, esse trecho aparece 'secularizado':
 

"Não sabemos como é que o Criador criou, que processos ele usou, pois ele usou processos que não estão operando agora em nenhum lugar do universo natural. É por esta razão que nos referimos à criação como criação especial. Nada podemos descobrir através de investigações científicas sobre os processos criativos usados pelo criador." (Gish, 1972, Edição Geral, p. 42)

Essencialmente, os criacionistas apenas mudaram a fraseologia do seu argumento anti-evolução, de "No princípio, Deus criou os céus e a terra" para "No princípio, um certo Criador cujo nome não nos permitem mencionar criou os céus e a terra", e argumentaram que, como esta última declaração não menciona uma entidade religiosa, é científica por essa razão. O absurdo desse argumento é auto-evidente.

Apesar das suas alegações recentes de ser "científico" e "não-religioso", os objetivos do ICR não mudaram desde os dias em que era uma dependência do Christian Heritage College [Universidade da Herança Cristã]. A introdução do livro Scientific Creationism [Criacionismo Científico], de Morris, cita abertamente, como uma das razões porque o criacionismo científico devia ser ensinado nas escolas públicas, a observação de que a evolução é "hostil ao cristianismo ortodoxo e ao judaísmo". (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. 67)

Em The Genesis Flood [O Dilúvio de Gênesis], Whitcomb e Morris declaram taxativamente: "Os falsos pressupostos e implicações da evolução orgânica e do uniformitarismo geológico precisam de ser desafiados em nome da Sagrada Escritura." (Whitcomb e Morris, 1961, p. 45) Num prefácio a uma impressão posterior do livro The Genesis Flood [O Dilúvio de Gênesis], Whitcomb e Morris reconheceram abertamente qual é o seu objetivo: "É a nossa oração sincera que Deus possa continuar a usar este volume para o objetivo de restaurar o Seu povo em toda a parte a uma confiança plena na verdade da doutrina bíblica das origens." (Whitcomb e Morris, 1961, p. xxiv)

Numa carta para os membros do ICR, Morris proclama abertamente qual é o propósito real por detrás do Institute for Creation Research [Instituto para a Pesquisa sobre a Criação], que ele descreve como sendo "um ministério com três faces":
 

"Estamos convencidos que este é o modo mais efetivo pelo qual o reconhecimento de Deus como soberano Criador e Salvador pode ser restaurado no nosso mundo moderno, especialmente para as multidões de jovens nas nossas escolas que têm sido doutrinados já há tanto tempo com a filosofia falsa e prejudicial do humanismo evolucionário." (Carta de Morris, Plaintiff's Outline of Legal Issues and Proof, McLean v. Arkansas, 1981, citado em LaFollette, 1983, p. 24)

Em cartas e publicações enviadas a membros do ICR, Morris torna claro que a "Pesquisa" do ICR está fortemente ligada com o seu trabalho evangélico:
 

"O trabalho do Senhor no ministério do ICR certamente continua... habilitando-nos a continuar a semear a semente da verdadeira Palavra de Deus, fundada na criação, implementada no grande trabalho de redenção de Cristo que está prestes a ser consumado quando Ele vier novamente." (Henry Morris, carta mensal do ICR, março de 1995)

"O evangelismo da criação é um método bíblico para alcançar tanto cristãos como não-cristãos que foram influenciados pelo humanismo evolucionário que domina as nossas escolas e meios noticiosos." (Henry Morris, Back to Genesis [De Volta ao Gênesis], junho de 1994)

Todas as versões em ficheiros de computador do periódico Impact [Impacto] do ICR, que são distribuídas através dos fóruns de discussão Origins Talk e Genesis Network, contêm um posfácio que declara sem rodeios:
 

"Como organização missionária, o ICR é fundado pelo povo de Deus. A maioria das suas receitas são providenciadas por doadores individuais que desejam proclamar a verdade de Deus sobre as origens... Acreditamos que Deus pôs de pé o ICR para servir como ponta de lança na defesa do cristianismo contra o dogma ímpio do humanismo evolucionista. Só mostrando a falência científica da evolução, ao passo que exaltam Cristo e a Bíblia, é que os cristãos serão bem sucedidos em 'destruir fortalezas; destruir fantasias, e toda a coisa altiva que se exalte contra o conhecimento de Deus, e trazer ao cativeiro todo o pensamento à obediência de Cristo" (II Coríntios 10:4,5)'" (ICR, "Impact: Vital Articles on Science/Creation" [Impacto: Artigos Vitais sobre Ciência/Criação], fórum de discussão Origins Talk).

E na folha noticiosa Arts and Facts [Artes e Fatos] de junho de 1995, John Morris, Vice-Presidente do Outreach Ministries do ICR, declara abertamente:
 

"O ICR é bem conhecido como um grupo de pesquisa da ciência da criação, com uma ênfase adicional na apologética bíblica. Mas em primeiro lugar e principalmente, o ICR é um ministério cristão... No ICR, Deus equipou-nos na área da ciência, e essa é a ferramenta que usamos para levar por diante a Grande Comissão." (Morris, Arts and Facts [Artes e Fatos], junho de 1995)

Morris conclui:
 

"A evolução ensina que a Bíblia tem erros e não é de confiança. Os cristãos precisam de ter as suas perguntas respondidas e as suas dúvidas removidas. As igrejas, seminários e denominações precisam de ser chamadas de volta sob a autoridade do Livro que lhes ensinaram a duvidar. Essa é a verdadeira mensagem do criacionismo." (Morris, Arts and Facts [Artes e Fatos], junho de 1995)

"Com a ascensão da evolução e do naturalismo, a 'ciência' tornou-se no inimigo do cristianismo, mas a verdadeira ciência 'declara a glória de Deus' (Salmo 19:1). O ICR deseja fazer a ciência voltar à sua posição apropriada, que glorifica a Deus." (Morris, Arts and Facts [Artes e Fatos], junho de 1995)

Os motivos do ICR -- usar a "ciência" da criação como meio para converter pessoas à interpretação literalista e fundamentalista da religião bíblica -- também são repetidos por outros criacionistas:
 

"Apresentar as evidências científicas sobre as origens é um dos meios mais eficazes para convencer as pessoas de que há um Deus, e isso pode ser feito mesmo sem mencionar o assunto." -- Luther Sunderland (Exhibit to Ellwanger Deposition, McLean v. Arkansas, 1982, citado em LaFollete, 1983, p. 110)

"Esperamos que os nossos leitores venham à fé, ou a uma fé mais forte na Bíblia e no Deus da Bíblia que é o Criador, Senhor e Juiz do mundo." -- Robert Kofahl (citado em Weinberg, 1984, p. 26)

No seu livro The Creation Explanation [A Explicação da Criação], os fundamentalistas Kelly Segraves e Robert Kofahl explicam que a ciência do criacionismo é "a nova apologética da criação bíblica, baseada na ciência." (Kofahl e Segraves, 1975, p. 181) Esse livro declara que o objetivo do Creation Science Research Center [Centro de Pesquisa da Ciência da Criação] é "alcançar os 63 milhões de crianças em idade escolar da América com o ensino científico do criacionismo bíblico." (Creation Science Research Center [Centro de Pesquisa da Ciência da Criação], Report [Relatório], outubro de 1973, citado em LaFollette, 1983, p. 49 e Nelkin, 1982, p. 79)

É claro que todas estas declarações eram só para consumo interno -- não se pretendia que o público as ouvisse. Publicamente, o ICR e outros "cientistas" do criacionismo têm continuado a insistir que a crença religiosa não tem absolutamente nada que ver com os seus esforços para forçar a introdução do criacionismo na sala de aula. Porém, as próprias declarações deles demonstram claramente que o objetivo do movimento criacionista não é, como eles alegam, apresentar uma "perspectiva equilibrada" ou uma "perspectiva científica alternativa" -- não passa de uma tentativa de usar o poder legislativo do Estado para obrigar as crianças a ficarem expostas à interpretação religiosa particular que os fundamentalistas têm sobre o Gênesis. Conforme comentou o Juiz Overton, do Arkansas, ao decidir a inconstitucionalidade dessa lei de "tratamento equilibrado" do Estado, a ciência criacionista "é uma cruzada religiosa, acompanhada do desejo de esconder este fato... Foi pura e simplesmente um esforço para introduzir a versão bíblica da Criação nos currículos da escola pública". (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981)

Portanto, os objetivos dos "cientistas" do criacionismo são claros -- todas as suas "pesquisas", os seus "jornais técnicos", os seus "debates", as suas tentativas de introduzir a "ciência" do criacionismo no sistema escolar, não passam de uma tentativa de fazer proselitismo e converter pessoas para a sua visão religiosa fundamentalista.

Bem, porque o criacionismo é basicamente um movimento de negação do consenso científico sobre a realidade que nos cerca e da qual fazemos parte, particularmente de nossa história natural profunda, como do fato das formas de vida mudarem ao longo do tempo geológico e de sua ancestralidade comum, portanto, do parentesco generalizado entre os seres vivos. Assim, faz parte do modus operandi dos criacionistas negar que os biólogos evolutivos conheçam vários mecanismos evolutivos, inclusive os que são capazes de gerar informação e incorporá-la ao longo da evolução é uma necessidade em seu repertório de negação [veja, por exemplo, “A origem de nova informação genética. Parte I” e “A origem de nova informação genética. Parte II”, além da resposta no Tumblr sobre esse topico]. A estratégia de exagerar nossas falhas de conhecimento e distorcer as evidências, modelos, hipóteses e explicações científicas sobre a evolução dos seres vivos é central no movimento criacionista, disseminando a desinformação e a ignorância sempre que podem.
Sim, você está correto que as mutações genéticas e a seleção natural são alguns dos mecanismos evolutivos estudados pelos cientistas, mas existem outros como a deriva genética e o efeito carona (às vezes, chamado de ‘arrasto genético’, ou ‘genetic draft' em contraste com a 'deriva genética', 'genetic drift’), apenas para citar dois bem conhecidos entre os geneticistas evolutivos modernos, além de outros que estão sendo avaliados como o ‘impulso molecular’ – ‘molecular drive’, que envolveria vários processos e mecanismos de renovação genômica, inclusive coisas como a conversão gênica enviesada responsável pela chamada evolução em concerto) e mecanismos que agiriam em escalas taxonômicas e ecológicas mais amplas como os processos de triagem e seleção de espécies (veja The Hierarchy of Selection), bastante discutidos na literatura paleobiológica, conjuntamente com fenômenos como a estase coordenada e os pulsos de renovação.
Portanto, existem muitos outros mecanismos evolutivos sendo investigados, além dos mais conhecidos, e não há motivos a priori para não buscarmos mais mecanismos caso os já conhecidos não expliquem tão bem os fenômenos evolutivos. Uma parte substancial das discussões internas a biologia evolutiva - ou seja, àquelas sobre os padrões e mecanismos evolutivos - é exatamente sobre a suficiência de certas classes de explicação evolutiva mais tradicionais (tipicamente em relação aos mecanismos intra-populacionais como mutação, deriva, seleção, recombinação etc), os ditos mecanismos microevolutivos, para explicar os padrões mais gerais de alternância, estabilidade e abundância relativa de táxons ao longo da história evolutiva de nosso planeta. Estas propostas tem sido constantemente postas à prova por análises quantitativas dos registro fóssil e por meio de comparações estatísticas entre padrões filogenéticos, especialmente referentes a originação, extinção e duração de táxons, ao longo da história de nosso planeta e dos diversos grupos estudados que as contrastam com as informações paleoecológicas e paleoclimáticas e com as características dos grupos em seus mais diversos níveis.
Contudo, o que é essencial em toda esta discussão é que os mecanismos e processos estudados sejam acessíveis a investigação empírica, operacionalmente definíveis e, portanto, comparáveis em termos dos padrões gerados por eles e seus desfechos em relação aos de mecanismos já melhor estudados. Não há lugar, na moderna biologia evolutiva, para a postulação de intervenções sobrenaturais inferidas, simplesmente, por que existiriam lacunas (na imensa maioria das vezes muito exageradas pelos criacionistas, diga-se de passagem) em nosso estado de conhecimento, uma vez que este tipo de suposição (tipica dos criacionistas) não nos acrescenta nada em termos científicos palpáveis (não compreendemos melhor a questão, não coletamos dados mais robustos, não criamos modelos mais precisos etc) e é feita apenas como parte de uma agenda proselitista que tem como objetivo confundir ciência com certas posições religiosas.
 

 


 


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