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Por que a religiosidade é tão difícil de ser curada?    
Frank R. Zindler


 

Enquanto nos reunimos aqui hoje na busca pela razão e pela compreensão racional do mundo, nosso mundo mais uma vez está no meio da atividade mais irracional - a guerra. Pois tão antigos quanto são nossos registros, nossa espécie tem feito uso de violência em larga escala com uma regularidade tão alarmante que pode-se até pensar que a guerra é uma característica específica da espécie Homo sapiens. Como no caso de praticamente todas as guerras, nossa espécie lutou no passado, a Guerra dos Balkans com a qual nós estamos preocupados no momento está profundamente enredada em disputas religiosas. Enquanto não muitas guerras do passado estiveram envolvidas com o ódio teológico trilateral visto na guerra atual - com os Muçulmanos Sunni, Católicos Ortodoxos e os Católicos Romanos mutuamente se execrando e se matando uns aos outros - não é exagero dizer que a imensa maioria das guerras do passado foram justificadas e validadas pela religião, quando não literalmente provocadas por ela. É quase impossível empreender uma guerra sem a aprovação dos deuses gentis e dos beligerantes.

Se a religião é tão central para o empreendimento bem sucedido da guerra - isso dificilmente seria um ponto debatível - parece óbvio que se nós eliminarmos a religião iríamos remover o ímpeto emocional e a "moral" da guerra. Embora seja irrealista supor que isso eliminaria a guerra completamente, iria com certeza fazer da guerra algo muito mais difícil de se iniciar e de se manter. A paz iria se tornar a regra da existência humana, não a exceção. Sem o talismânico Gott mit uns nas fivelas de nossos cintos, nós iriamos ter que pensar duas vezes antes de marchar para a luta contra os infiéis pervertidos. (Na verdade, o 'duas vezes' não é a parte importante: o fato de termos que pensar é que é a novidade.)

Pouco tempo depois de eu ter me tornado Ateísta, com maduros dezoito anos, descobri as raízes religiosas da guerra e pensei que poderia fazer algo sobre isso. Me tornaria o sucessor de Mahatma Gandhi. Iria ter sucesso trazendo a paz para o mundo - erradicando a religião. Sem dúvida eu ganharia o Prêmio Nobel da Paz.

Visando a esse fim nobre/Nobel, comecei a me preparar. Estudei tudo que parecia relevante à tarefa de matar o dragão da superstição. Estudei as linguagens mortas na qual as escrituras foram escritas, estudei toda a ciência, da astronomia até a zoologia alfabeticamente e da física de partículas até a psicologia conceitualmente. Estava indo pegar a religião. Eu iria aprender a detectar toda mentira, engano e fraude perpetuadas pela religião. Iria aprender como as escrituras do mundo foram tramadas. Iria identificar os erros na lógica religiosa (ou o que quer que seja isso), e iria dominar todas as "provas" da existência dos deuses e refutá-las. Eu procurei demolir as fundações lógicas e evidenciarias da religião. Com certeza, após ter feito isso, a religião deve ruir e desaparecer.

Após muitos anos completei a maior parte dos meus estudos e fui salvar o mundo ao converter todos ao Ateísmo. Enquanto tive um considerável sucesso e converti muitos, eu tive problemas. Encontrei cientistas que aceitavam a evolução e a maior parte do resto da ciência, mas estavam profundamente impressionados pela "evidência" da profecia bíblica. Encontrei bibliólatras que não abrigavam nenhuma ilusão sobre a Bíblia sendo "inspirada", mas estavam impressionados com os argumentos de certos criacionistas e sentiam que um deus era necessário para criar o arco-íris, as rosas e o amor materno.

Até certo ponto, tais problemas foram sanados de forma bem sucedida com os procedimentos óbvios: ensinando um pouco de biologia evolucionária básica aos bibliólatras e explicando a história evolucionária das escrituras e as dimensões completamente humanas da "profecia" para os cientistas. Mesmo assim muitas pessoas continuaram não convencidas com os meus melhores esforços. Não havia nada que eu pudesse explicar ou demonstrar que os fizessem abandonar suas ilusões religiosas.

Por que eles não desistem?

Por que é que todo mundo não desiste da religião quando você apresenta toda a lógica e evidência - evidência absolutamente conclusiva- contra ela? Por que tantas pessoas ainda permanecem convictas após toda as suas ICBMs argumentacionais explodirem cada cidadela de mito?

Alguém pode naturalmente supor que a baixa inteligência é a principal causa da religiosidade. Afinal de contas, pensar é muito mais difícil do que crer - daí a grande preponderância de crentes sobre os pensadores em todas as eras e culturas. Mas o que se pode dizer quando os membros desse pequeno círculo seleto, que identificamos como pensadores, são crentes também? A baixa inteligência não é necessariamente o problema.

Considere a recente experiência que tive na Internet. Uma manhã recebi um e-mail extremamente insultante de um criacionista que havia lido algo que eu escrevi sobre criacionismo na Web-page dos American Atheists. Uma troca de mensagens durante meses resultou numa argumentação entre nós sobre criação versus evolução em todos os níveis de evidência imagináveis. No final, o sujeito permaneceu firme com sua crença de que o universo tem apenas alguns milhares de anos e que eu era um enganador profissional.

Acabei sabendo que meu antagonista anônimo possui um Ph.D. em bioquímica da Boston University e está engajado em uma pesquisa bioquímica muito sofisticada de grande relevância aos estudos do câncer e outras áreas da medicina. Por que não se pode fazer uma pessoa obviamente inteligente ver algo tão óbvio quanto a imensa antigüidade da Terra? Havia uma pista.

No começo de nossa disputa, o criacionista afirmou que não haviam erros ou contradições na Bíblia. Imediatamente, revidei com duas passagens que eram tão obviamente contraditórias que pensei que não pudesse haver argumentação posterior.

II Reis 23:8 'E Jehoiachin tinha dezoito anos quando começou a reinar, e ele reinou em Jerusalem por três meses.' II Crôn 36:9 'Jehoiachin tinha oito anos quando começou a reinar, e ele reinou por três meses e dez dias em Jerusalem.'

Imagine a minha consternação quando recebi uma resposta inventivamente recheada que negou completamente o meu argumento que o Reis e o Crônicas não poderiam ambos serem verdadeiros. Para tornar minha consternação ainda maior ele não teve a dignidade de tentar explicar "a aparência de contradição" (como a maioria dos apologistas da Bíblia expressariam) nas duas passagens. Não havia contradição entre essas duas passagens! Ponto final. Claramente, ele não era capaz de ver o que era óbvio pra mim. Claro também era o fato que havia um problema de percepção envolvido.

Ele estava mentalmente doente? Para ser exato, os pensamento e o comportamento religiosos de quaisquer tipos podem ser considerados formas de doença mental. Mas se não há nenhum impedimento em se atender as necessidades diárias ou as funções corporais de alguém, se o pensamento religioso não interfere com a habilidade de se sustentar - se a distorção do raciocínio religioso não se sobrepõe sobre o domínio prático da vida - parece um pouco exagerado escrever que demonstrações ocasionais de ilusão religiosa são doença mental. Tanto quanto pude determinar, meu antagonista se sai bem num laboratório e sabe quando é apropriado usar roupa de banho.

Certamente a condição dele não era tão séria quanto a de pessoas que me dizem "eu sei que Deus é real porque Ele fala comigo." E até mesmo as pessoas que afirmam tal absurdo não são doentes mentais no sentido sério da expressão. Sobre interrogatório, a maioria delas irá admitir que não estão realmente ouvindo vozes. Ao invés disso, são pensamentos que surgem do nada em suas mentes que parecem tão diferentes dos pensamentos normais que elas acham que os pensamentos vem de fora de si mesmas. No criacionista e nas pessoas que não conseguem reconhecer seus próprios pensamentos quando os pensam, encaramos o problema das experiências subjetivas e sensações distorcidas tão convincentes que eles são capazes de sobrepujar todas as evidências sensoriais externas que possam se opor a eles.

Por que o cérebro humano escorrega tão facilmente em tal função desordenada? Como a seleção natural permitiu que tal deficiência disseminada sobrevivesse - de fato, prosperasse - numa espécie? Devemos tentar aprender a resposta.

Religião como comportamento específico de uma espécie

Há muito tempo atrás, Charles Darwin escreveu um livro chamado A Expressão das Emoções no Homem e Nos Animais, na qual ele explorou as raízes evolucionárias da psicologia. Rir, chorar, sorrir e muitos outros comportamentos humanos foram encontrados em todas as raças e culturas. Além disso, as raízes desses comportamentos poderiam ser rastreadas nos macacos e em outros "animais menores." Como o corpo humano, viu-se que o comportamento humano evoluiu de uma condição pré-humana. Atributos comportamentais, tal como os anatômicos, podem ser específicos da espécie e poderiam ser usados para definir uma espécie biológica. Sendo este o caso, parece óbvio que esses comportamentos devem ser geneticamente condicionados: os comportamentos resultam da "conexão" e do funcionamento psicológico do cérebro, e esses por sua vez resultam da expressão - ao ponto que o ambiente permite - das mensagens instrucionais integradas no genoma humano.

Se a religiosidade é uma característica específica da espécie Homo sapiens como um todo (e não apenas uma característica sexual secundária da fêmea humana, como G. B. Shaw uma vez disse espirituosamente), deve haver uma base anatômica e psicológica para tal no cérebro humano.

Evidências para uma base neural para a religião estiveram disponíveis por um longo tempo. Sabemos há muito tempo que drogas enteogênicas podem fazer as pessoas terem experiências religiosas, alucinações sacras, e outras sensações "maravilhosas". O cacto peiote (que contém mescalina1) é usado por Nativos Americanos em seus ritos religiosos para induzir uma psicose sacra, e as drogas fungais psilocibina e amanitina podem ter sido usadas como enteogenes no Oriente Médio. O estudioso dos Atheist Dead Sea Scrolls, John Allegro, uma vez escreveu um livro chamado O Cogumelo Sacro e A Cruz. Neste livro, ele rastreou as experiências do Oriente Médio com o cogumelo venenoso e alucinógeno Amanita muscaria até os antigos Sumérios e lançou o sensato argumento que ressonâncias de experiências com o "cogumelo mágico" poderiam até ser detectadas no Novo Testamento.

As implicações disso são óbvias. Se moléculas de certas drogas são capazes de nos fazer ter experiências religiosas, deve haver um circuito em nossos cérebros que está sendo ativado ou habitado por essas moléculas - e esse circuito é pelo menos indiretamente um produto da genética.

Posteriores suportes para uma base neural da religião vieram do fato que existem drogas ateogênicas tal como enteogênicas. Em pelo menos algumas das psicoses caracterizadas por ilusões extremamente religiosas, drogas antipsicóticas podem dispersar o delírio religioso. Alguém duvida que, ao exorcizar os deuses de tais pacientes, as drogas estão agindo em receptores neurais em particular e afetando o ativamento neural? Seria demais esperar que algum dia uma cura por drogas estará disponível pro vício religioso? Esse mundo não será grandioso quando um médico puder dizer "Tome duas Torazinas e me ligue em um mês se você ainda sentir um impulso de pagar dízimo"?

Devemos nos lembrar também que a epilepsia do lobo temporal (ELT) é freqüentemente acompanhada de uma hiper-religiosidade, e é provável que São Paulo - o criador do Cristianismo, conforme pode ser demonstrado com argumentação - sofreu de epilepsia do mesmo tipo. O Dr. Vilayanur Ramachandran, diretor do Centro de Cérebro e Cognição da Universidade da Califórnia, estudou pacientes com ELT e descobriu que suas Respostas Galvânicas de Pele são desproporcionalmente despertadas pela apresentação de palavras religiosas. A palavra Jesus fará suas palmas suarem tanto quanto as de pessoas normais suam quando elas são apresentadas a termos sexuais. Mais uma vez parece que os processos do cérebro (e os patológicos a essa altura!) são a causa das experiências religiosas. Para encerrar o assunto, o argumento parece que fica esclarecido pelos recentes experimentos que demonstram que "experiências religiosas", "sensações de divindades" e afins, podem ser disparadas por estimulação elétrica de certas partes do cérebro.

Antes de tentar discernir qual seria a função "normal" do "circuito de deus" do cérebro, devemos notar uma dica final. As experiências religiosas desde as épocas remotas freqüentemente foram associadas com transe induzido por fenômenos hipnóticos tais como dançar, cantar e outros fatores que aumentam a sugestibilidade.

Se, conforme parece agora indiscutível, existem partes do cérebro que mediam as experiências religiosas e são a causa de nossas ilusões de comunhão divina, devemos perguntar por que elas existem. Qual é a função normal delas? Por que um processo pragmático tal como a seleção natural iria produzir tais estruturas? Eu creio que as respostas para essas perguntas serão encontradas na solução de um quebra-cabeças ainda maior: por que, se a religião é veridicamente falsa, a seleção natural iria permitir que elas, não apenas sobrevivam, mas prosperem?

O Passado Evolucionário

Para descobrir o funcionamento "normal" do "módulo de deus" do cérebro, iremos ter que investigar as dimensões evolucionárias de três fenômenos intimamente interrelacionados: religião, hipnose e música.

Enquanto os detalhes particulares da religião são transmitidos verbalmente pela cultura - nosso substituto para o instinto - eu suponho que a religiosidade do Homo sapiens pode ser considerada até certo ponto instintiva. Se torna plausível o fato de que pode haver algo como um instinto religioso, penso eu, quando consideramos as implicações do fato que evoluímos como uma espécie social, não como uma espécie solitária. Evoluímos como animais sociais - animais de rebanho. Evoluímos como lobos, não como raposas.

Na evolução das espécies sociais de cérebro grande deve surgir um conflito entre o desejo de autonomia - auto-gratificação - e a necessidade do grupo por integração e subserviência. Em muitas espécies sociais, a autonomia e a separação do grupo produz ansiedade. Uma ovelha perdida não é um animal feliz, e muitos Cristãos separados de suas congregações, padres e pastores experimentam uma angústia profunda. (É por causa disso que a excomunhão e o banimento podem ser tão devastadores para certas pessoas.) Parece que é uma das funções da religião permitir as pessoas "escaparem da liberdade", como o psiquiatra Erich Fromm uma vez disse. Quando fazemos o que nossos padres nos mandam fazer, evitamos a ansiedade que vem ao tomarmos nossas próprias decisões - ansiedade que surge da consciência dolorosa de nossa própria incompetência e propensão a cometer erros. A religião serve como um veículo para descarregar a ansiedade ao conectar indivíduos isolados ao grupo e faze-los se sentirem como se de alguma forma o poder do grupo inteiro fluísse através deles. Ao fazer isso, devo argumentar, a religião usa o circuito neural evoluído nos animais sociais pré-humanos para uma comunicação não-verbal dentro do grupo.

Seleção de Grupo

Na evolução das espécies sociais, a seleção natural pode agir no nível de grupo tanto quanto no nível do indivíduo. Isso significa na prática que os grupos podem competir uns com os outros e pools gênicos inteiros podem ser selecionados (preservados) ou extintos, dependendo da "adaptação" geral dos grupos competindo. A exterminação da oposição genética é o objeto desse processo evolucionário. O genocidio tem uma longa história - ou talvez devêssemos dizer pré-história. Os conceitos sociobiológicos do in-group e out-group são úteis para entender a dinâmica desse tipo de evolução social.

Para um in-group particular prevalecer sobre os vários out-groups com o qual ele compete por recursos, uma são necessárias cooperação e coordenação intragrupo de maior nível. Há uma necessidade de coesão dos indivíduos que constam no grupo, daí eles podem se comportar como um superorganismo integrado. Para uma eficiência máxima na guerra é necessário que um grupo inteiro de soldados estejam aptos para agir e funcionem como se fossem um único indivíduo bem coordenado.

A comunicação é fundamental para a cooperação e a coordenação bem sucedida. Mas como a comunicação é afetada antes da origem da linguagem? Como, por exemplo, os gnus sabem quando é hora de fugir em debandada? A não ser que o rebanho inteiro debande em uníssono, o rebanho ficará vulnerável - e uma "debandada de um" seria quase certamente fatal para o indivíduo correndo entre um grupo de leões. O que é que traz a necessária dissolução e fusão de ego de cada indivíduo com o "espírito do rebanho"?

Hipnose

Enquanto a sinalização química tal como a liberação de feromônios, sinais físicos tais como levantar o rabo ou outras demonstrações, e os sinais auditivos tal tomo bufar, mugir, chorar, e afins pode ser empregadas para listar a cooperação, para ter sucesso todos eles requerem que os animais que os percebam sejam "suscetíveis" - i.e., capazes de interiorizar o sinal recebido, ponderarem e tomarem sua "decisão", e a passarem adiante. A comunicação nesse nível é na maior parte a transferência de emoções através dos membros de um grupo. As emoções devem ser tão contagiosas quanto bocejar ou se coçar.

É normalmente aceito que a sugestão e a sugestibilidade são as raízes da hipnose. A hipnose e a hipnosibilidade, eu suponho, são relíquias do sistema de comunicação que funcionou no rebanho humano pré-verbal. Não conheço nada que possa se igualar à hipnose na facilidade que ela tem para comover - envolva a mudança rir, chorar, excitar, ou falta de sensibilidade à dor. Em todas essa mudanças, as sensações são de necessidade alterada. Limões azedos são percebidos como laranjas doces, cigarros acesos são percebidos como aplicadores de loção, e a fumaça de incenso é percebida como espíritos de anjos pairando no ar.

A hipnose também é capaz de induzir experiências religiosas desde a simples sensação de solidão com o universo até alucinações fulminantes de vozes divinas emitindo mandamentos. Adicione o fato de que o transe (na forma de encantamento e de meditação e prece condicionada, a consciência alterada de pessoas que pensam que um curandeiro as curou, etc.) é um componente importante de muitas religiões, e temos uma pista do por quê a religião evoluiu. A religião evoluiu como um meio de induzir e conduzir a hipnose - e exterminar a competição genética. A religião surgiu como um catalisador efetivo de guerra eficiente ao ser um conduite para o fluxo de sugestões agressivas. Por ser capaz de funcionar em um nível pré-verbal, a hipnose pode fugir do radar da mente racional. Ela pode produzir guerreiros que não sentem medo ao encarar as circunstâncias mais ameaçadoras. Ela pode criar uma ilusão clara de um mundo melhor em outro plano - uma ilusão tão poderosa que guerreiros não hesitarão em lutar por ela, não importa quão assustador seja o mundo real.

Não deve haver nenhuma sensação de paradoxo no fato da religião e da guerra estarem juntas tão freqüentemente. A facilitação da guerra foi a razão de ser da religião pra começo de conversa!

Para voltar ao assunto principal dessa conversa, vamos perguntar novamente por que a religiosidade é tão difícil de ser curada. Por que as sensações religiosas são tão difíceis de serem modificadas? Uma pista pode ser encontrada na associação íntima da hipnose com a religião e a tenacidade com a qual as sensações implantadas pela hipnose podem ser mantidas apesar da evidência externa. As sensações religiosas são, creio eu, implantadas hipnoticamente.

Pode ser visto em um experimento que fiz há muitos anos atrás o quão pertinentes podem ser as crenças hipnóticas, quando pesquisei ativamente na área da hipnose experimental. Em um dos meus experimentos hipnotizei um homem que usava botas de couro. Ele era um bom sujeito, então decidi explorar o quebra-cabeças das sugestões pós-hipnóticas. Dei a ele a sugestão pós-hipnótica de que muitos minutos após acordar ele iria "descobrir" que havia posto suas botas no pé errado. O acordei e conversei por alguns minutos. De repente, ele olhou contorcido para seu pé, como se estivesse sentindo um desconforto, quase uma grande dor. Com jovialidade, ele fitou suas botas e então as recolocou: a bota direita no pé esquerdo, a bota esquerda no pé direito.

Por dez ou quinze minutos ele conversou comigo, sem perceber a sua condição absurda. Apenas quando ele se levantou para andar - e quase quebrou o pescoço tentando andar no tapete - ele de repente percebeu que suas botas estavam no pé errado. Esse experimento foi claramente análogo com o caso da hipnose do encontro da tenda que testemunhei uma vez. Nesse caso, uma mulher com artrite foi hipnotizada por um curandeiro para acreditar que sua artrite havia sido curada. Embora ela tenha vindo à tenda com muletas, após receber o raio divino ela começou a correr pela tenda à todo vapor - juntas rangendo, rachando e reclamando, mas nenhuma dor foi sentida pela pobre criatura sendo explorada pelos pastores presidindo o show. Diferentemente do colega de botas, ela teve que ser carregada para casa após o encontro. Eu aposto que na manhã seguinte ela pensou que o Satã trouxe de volta sua doença.

A tenacidade com a qual as sensações implantadas pela hipnose são mantidas apesar da evidência dos sentidos físicos nos dá uma compreensão do por quê as sensações religiosas são tão difíceis de serem modificadas. A mentalização religiosa, como a sugestão pós-hipnótica, navega abaixo do radar da realidade. Ela é pré-verbal em um grau muito alto, e portanto imune àquele processo verbal essencial que chamamos de lógica.

Reunindo Tudo Isso

Conforme já notamos, ao lidar com as experiências religiosas encaramos o problema das experiências subjetivas tão convincentes que são capazes de sobrepor todas as experiências sensoriais externas. Tanto os experimentos com estímulo elétrico quanto os relatos pessoais, freqüentemente indicam que durante as experiências religiosas há um colapso do ego e dos limites do 'eu', criando uma sensação de singularidade. O sujeito se sente unificado com o cosmos, unificado com a raça humana. Os sujeitos relatam a sensação de receber uma sabedoria ou conhecimento indescritível, conhecimento que não pode ser expresso em palavras.

Enquanto é possível que as partes de processamento de fala do cérebro estejam envolvidas nas experiências religiosas, eu suspeito que o núcleo das funções cerebrais envolvidas são aqueles associados com a comunicação não-verbal - os elementos do cérebro que permitem rebanhos de animais se comunicarem e perceberem as intenções do rebanho. Emoções são contagiosas, e o circuito neural por trás desse fato está provavelmente envolvido nas experiências religiosas também.

Conforme já sugeri, a função evolucionária da religião foi de aumentar a coesão dentro do grupo para assim aumentar a competição com os grupos de fora: Israelitas vs. Jebusitas vs. Hivitas, ou Croatas Católicos vs. Sérvios Ortodoxos vs. Bósnios Muçulmanos. Isso proporciona um meio de redução de ansiedade causada pela autonomia, ao permitir a dissolução do 'eu' e absorção na consciência coletiva - a coleção de mensagens preverbais e verbais ativas no ambiente no qual a atividade religiosa está sendo conduzida.

A função primária da religião é mais efetiva quando efetuada hipnoticamente. Por proporcionar um meio focalizado de indução de transe, a religião facilita a imposição da vontade de um grupo (ou seus líderes!) sobre seus membros individuais. Ela o faz por meios de prece hipnótica, canto ritmado, dança, bater de palmas, cântico monótono, ou percussão - e nos dá uma pista do "propósito" evolucionário da música. Quase certamente, o ritmo antecede a melodia. Começamos como galos roucos e batucadores e evoluímos para rouxinóis apenas no final da história. Por que? Porque os ritmos persistentes são úteis para induzir o transe. Os ritmos elétricos do cérebro mudam conforme os estados de consciência. Isso parece explicar o uso da percussão e da dança entre muitos índios americanos antes de irem para a guerra. A música foi o portal através do qual os guerreiros entraram em um mundo que não conhecia medo, um mundo sem ansiedade. Portanto, a música evoluiu como uma forma de induzir ao transe hipnótico.

A susceptibilidade hipnótica, embora seja mais velha que a própria espécie humana, foi elaborada pela seleção natural como um meio de aumentar a coesão dentro do grupo e como um meio de produzir um comportamento competitivo altamente ordenado e eficiente no nível entre-grupos. Conforme a transmissão cultural de comportamentos aprendidos substituiu a transmissão genética de comportamentos instintivos, a religião emergiu como o sistema decidindo os objetivos pelos quais a hipnose seria aplicada. O conteúdo mítico real das religiões individuais provavelmente não fez muita diferença. Zeus, Yahweh e Baal são todos imaginários, e não há razão óbvia para recomendar um e não os outros. Entretanto, a estrutura das organizações culturais por trás das várias divindades foi de grande importância. É óbvio que os magos que puxavam as cordas no templo de Yahweh tiveram uma maneira muito mais efetiva de controlar a terra de Oz do que aqueles que se esconderam por detrás das cortinas nos templos de Zeus e Baal!

Pela Última Vez - Por Que A Religiosidade É Tão Difícil de Ser Curada?

Análoga à hipnose, a religião distorce as percepções, as tornando resistentes à correção. Freqüentemente, emoções fortes devem ser evocadas antes do encanto poder ser quebrado: é como usar água gelada para acordar uma pessoa hipnotizada. O circuito neural da religião está intimamente entrelaçado com aquele que nos distingue como animais de bando, como uma espécie social. Tentativas cirúrgicas de remover os componentes religiosos prejudiciais deste circuito são naturalmente resistidas - como se fossem tentativas de privar as pessoas de sua identidade grupal. A perda da religião produz mais autonomia, mas novamente isso pode aumentar os níveis de ansiedade. As ilusões que reduzem a ansiedade não serão abandonadas facilmente. Sem se opor a tudo o que eu disse hoje, o medo continua sendo o solo no qual as raízes da religião se alimentam. A não ser que meios melhores de reduzir o medo se tornem disponíveis, a religião continuará a se alimentar do nosso neuroplasma.

O Significado para os Ateístas

Por que é tão difícil para os Ateístas se organizarem? Se 8-12% da população é de fato Ateísta, onde eles estão? Por que eles não estão se juntando a nós? Ao mesmo tempo, muitos dos Ateístas que se juntam a nós querem mais eventos sociais, mais oportunidades de interação interpessoal. Existem dois tipos de Ateístas? Sugiro que existam: Ateístas Inerentes e Ateístas Convertidos.

Ateístas Inerentes (Tipo A) são aqueles no qual a indoutrinação religiosa nunca funcionou muito bem em primeiro lugar. Estas pessoas são Ateístas no qual as bases genéticas e neurológicas dos animais sociais esvaneceram de alguma forma? Essas pessoas são por natureza menos gregárias, mais reservadas e menos sujeitas ao contágio emocional? São eles os mais puros introvertidos?

Ateístas convertidos (Tipo B) são aqueles que já foram muito religiosos, mas devido (talvez) a alguma experiência de caráter profundamente emocional conseguiram permitir que o peso dos indícios contra a religião finalmente lhes penetrasse a razão. São eles os ateístas que sentem prazer ao estarem com outros ateístas, os que querem mais almoços, convenções, etc.? Eles ainda têm as bases regulares dos animais sociais? São eles os mais puros extrovertidos?

Se estou correto nesta hipótese, as organizações ateístas precisarão usar aproximações diferentes para recrutar esses dois tipos diferentes de ateístas.

Ateístas Tipo-A nos devem ser atraídos com argumentos que eles podem relacionar ao seu próprio bem-estar. Eles devem ser ajudados a ver que embora não há deus algum, existem muitos demônios aí que, se não houver oposição, irão tomar a sua liberdade e terão impacto em seus livros de bolso e no conforto pessoal. O impacto emocional tanto quanto o lógico de tal recrutamento deve ser suficiente para sobrepor a reticência normal deles a entrar em grupos de qualquer tipo. Eles devem enxergar 'se juntar a nós' como um ato de auto-defesa.

Ateístas Tipo-B - ou seja, aqueles que já se tornaram ateístas - irão normalmente querer muito se juntar a nós. Entretanto, precisam saber que existimos e como entrar em contato conosco. Publicidade bem gerenciada e distribuir nossas revistas e newsletters em bibliotecas públicas e escolares pode trazê-los.

Indivíduos Tipo-B que ainda estão em igrejas precisarão ser expostos aos argumentos que não são apenas lógicos e científicos, mas também devem receber uma surra emocional. Deve haver um componente que possa ultrapassar a barreira perceptiva normal que protege os centros religiosos dos cérebros deles. O equivalente argumentacional dos baldes de água gelada - ou o aperto nos dedos de botas que finalmente são vistas estando no pé errado - deve ser criado. O feitiço precisa ser quebrado. Isso pode requerer estratagemas extravagantes ou até mesmo exorbitantes, tais como quando (na televisão) eu desafiei o secretário nacional da dita Maioria Moral a demonstrar sua fé ao comer amendoins envenenados que ofereci à ele (Marco 16:18) ou se castrando (Math. 19:12) com a rústica faca de escoteiro que eu queria providenciar.

A necessidade de encontrar uma cura para a religiosidade está pressionando. O mundo não pode sobreviver muito se as mentes dos que resolvem problemas forem enevoadas pelo ópio da religião. Devemos perceber a realidade da forma mais precisa que o princípio da incerteza de Heinsenberg permite. Não podemos tolerar ilusões. Os jogos que nossa espécie está jogando conosco e com o nosso ambiente são de vida ou morte.

Nós Ateístas devemos fazer tudo ao nosso alcance para destilar a poção despertadora que irá limpar as mentes dos nossos amigos homens e mulheres. Devemos revogar o curso evolucionário que a natureza colocou sobre nós quando criou a religião como uma agência mediadora para a forma mais complicada de vida social que o nosso planeta conheceu. Devemos quebrar o feitiço mal que a religião jogou sobre os castelos das nossas mentes e sobre as torres do nosso pensamento. Devemos fazer tudo ao nosso alcance para libertar os prisioneiros do pensamento do nosso planeta.

Não é apenas uma necessidade ética, é uma necessidade prática também. Nós que, qualquer que seja o motivo, libertamos nossas próprias mentes, não podemos permanecer para sempre livres quando tudo sobre nós não está apenas preso mas ocupado forjando - em seus calabouços eclesiásticos - correntes que novamente eles podem usar para confinar nossas mentes.

É um trabalho muito difícil para o Batman e Robin - demais até para o Super-Homem. Mas é o trabalho que a STR e os American Atheists assumiram. Foi feita a solene promessa que devem trabalhar incessantemente e com toda as suas fontes de energia para trazer a liberdade da mente humana, para libertar os prisioneiros religiosos, e para encontrar curas para todas as variedades da doença mais mortal, a religiosidade.


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Antigo professor de biologia e geologia, Frank R. Zindler é agora um escritor sobre ciência. É membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, a Academia de Ciências de Nova York, A Sociedade de Literatura Bíblica e as Escolas Americanas de Pesquisa Oriental. É editor da American Atheist.

 

 


 


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