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Ciência e Igreja: Quando a evidência não pode ser negada         
de Sandro B. Rembold


 

   No inverno de 1999 tive a oportunidade de conversar com um teólogo, que também era pastor da igreja luterana. Claro, sendo eu ateu e ele pastor, a conversa acabou tratando exclusivamente de religião. No auge da conversa, resolvi perguntar se ele acreditava na sugestão bíblica de que o Universo tem somente cerca de 6 mil anos (cálculo histórico feito a partir das genealogias bíblicas). Não preciso dizer qual foi sua resposta imediata.
Aquela resposta me foi tão desanimadora que nem tive coragem de perguntar por que razão ele acreditava naquilo. Mas essa resposta também é óbvia: Assim Está Escrito. A verdade está nas Escrituras, ou seja, Assim Está Escrito garante a posse da verdade, por definição, pelas Igrejas, e pelo seu Deus.
O problema (ou a solução do problema) é que, freqüentemente, as evidências que desmentem as "verdades" bíblicas são tão descaradas que fica difícil até mesmo para o mais cego dos crentes se livrar da pulga atrás da orelha. Em alguns casos, essa pulga se torna um elefante; as evidências de que a Terra é (aproximadamente) esférica já deixaram de ser questionadas há muito tempo. Pelo mesmo caminho foi a afirmação bíblica (ou a interpretação das Igrejas, como preferirem) de que o Sol e todos os outros corpos do Sistema Solar giram em torno da Terra. As "verdades divinas" vão se retraindo às sacristias, e finalmente são banidas pelo derrotado corpo eclesiástico (com pesar, é claro).
No século XVIII, a Igreja sofreu grandes baixas no terreno das "verdades últimas". A "Grande Cadeia do Ser", estrutura maravilhosa e pouco criativa inventada pela Igreja, que se baseava na idéia de que todos os seres vivos foram criados simultaneamente, e formavam uma cadeia perfeita (com os seres humanos no topo, é claro), foi criada na intenção de negar as evidências fósseis de seres vivos extintos cada vez mais freqüentemente encontrados pelos (recém surgidos) paleontólogos. Não sei dizer o quanto esse pensamento ainda percorre os cérebros religiosos do mundo; de qualquer forma, os indícios contrários a essa idéia foram demasiado fortes, e continuam se multiplicando, assim como a facilidade de vermos com nossos próprios olhos essas evidências, em qualquer museu ou universidade. E mais: as regiões onde os fósseis são encontrados dão uma forte indicativa de que houve grandes transformações geológicas na história da Terra: peixes no alto de montanhas, conchas marinhas no deserto, e tudo o mais que se possa imaginar. Nem é preciso pensar nos testes de carbono radiativo (que dão uma idéia mais ou menos precisa da idade dos fósseis e das camadas geológicas): como essas transformações em grande escala poderiam ter ocorrido num espaço de 6 mil anos? A igreja defendeu seu cálculo durante algum tempo com a alegação de que Deus pode ter criado o planeta com aparência de ter milhões de anos. É uma alegação tão doida que possibilita uma resposta na mesma direção: Deus pode ter criado as Escrituras parecendo que são sua palavra. Ou ainda, pode parecer que o Universo exista, e pode parecer que Deus exista. Não é objetivo deste texto tratar de filosofia existencial. Basta dizer que nem mesmo a Igreja leva a sério tal proposta hoje em dia.
As evidências não só teimam em tirar o homem do topo da cadeia da vida como também do centro do Universo. Séculos se passaram desde que Nicolau Copérnico propôs o modelo heliocêntrico (no livro Das Revoluções das Esferas Celestes) (Nota 1), tempo suficiente para que experimentos extremamente precisos fossem feitos, e para que a Igreja se acostumasse a essa idéia (e, é claro, partisse para mais uma interpretação da Verdade Revelada). Na época, Copérnico foi criticado por todos que tinham algo a perder com a proposta: Calvino esbravejou contra quem tivesse a audácia de colocar o modelo heliocêntrico acima do Espírito Santo; Lutero encontrou uma forma brilhante de desmentir o heliocentrismo: "Pelas Escrituras, Josué mandou parar não a Terra, mas o Sol". É a fórmula mágica Assim Está Escrito mais uma vez em ação.
Já o peso da autoridade Católica se fez sentir sobre o filósofo e astrônomo Giordano Bruno. Nascido cinco anos depois da publicação do livro Das Revoluções, se tornou um defensor do modelo de Copérnico. Mas Bruno ia mais longe: além de defender o heliocentrismo, declarava que o Sol era uma estrela. Sendo assim, todas as estrelas do universo poderiam ter planetas em torno de si, como o Sol tem, e estes planetas poderiam estar cheios de formas vivas, como a Terra. Suas conjecturas jamais poderiam ser testadas cientificamente na época; e mesmo se pudessem, não teriam salvado a vida de Giordano Bruno, que após ficar preso sendo julgado durante oito anos, foi queimado vivo pela Igreja. Digo que sua vida não teria sido poupada nem com evidências experimentais porque, de 1995 a 1999, foram descobertos 28 planetas fora do Sistema Solar, e jamais vi nenhum líder da Igreja sequer pensar em uma retratação pública em relação à morte de Giordano Bruno. Claro, a Igreja diz que Bruno não foi condenado somente por suas idéias astronômicas, mas porque era abertamente herético. Isso me tranqüiliza bastante, pois basta que eu negue ser ateu e estarei salvo da fogueira, mesmo não tendo dúvidas de que Giordano Bruno estava certo. A propósito, alguém acredita seriamente hoje em dia que as estrelas não sejam sóis? Um contemporâneo de Giordano Bruno, Galileu Galilei, passou por uma experiência bastante semelhante. Ele cometeu o mesmo pecado de Bruno, que foi levar a sério o modelo heliocêntrico de Copérnico. Segundo estudos periféricos de alguns religiosos, o que perturbou mais seriamente a Igreja em relação a Galileu foram seu questionamento em relação ao trecho bíblico de Josué, já mencionado acima, em que supostamente o Sol e a Lua pararam, e uma pequena teoria corpuscular da luz desenvolvida por ele. De qualquer forma, Galileu foi condenado pelo Santo Ofício, e só se salvou da morte por ter, de joelhos, se retratado das suas conjecturas (sua pena foi de prisão domiciliar perpétua)(Nota 2). Ou seja, negado as evidências que sustentavam suas teorias em prol das Verdades Reveladas, ou da conveniência destas Verdades.
As evidências científicas de que o modelo heliocêntrico está correto se tornaram tão fortes que, em 1992, o Papa João Paulo II desculpou-se, em nome da Igreja Católica, de ter condenado Galileu por suas idéias, e o reabilitou. Me pergunto se essa reabilitação teria interessado a Galileu mais do que a oportunidade de ver com seus próprios olhos as evidências astronômicas que levaram a Igreja a reconhecer sua atitude irracional, absurda e selvagem. E, é claro, suas idéias errôneas.
Muitas das pesquisas científicas em andamento continuam a jogar baldes de água fria (ou de evidência fria) nas certezas transcendentais da Igreja. A própria descoberta de planetas fora do sistema solar está cada vez mais acelerada. A precisão na determinação da idade de fósseis, assim como da idade do Universo, está aumentando a cada dia. A criação de animais que jamais existiram, a partir do código genético de uma espécie existente, está a um passo de se tornar viável. Etólogos estão diminuindo cada vez mais a distância entre os animais e o homem, graças aos seus estudos sobre o intelecto animal, enquanto o ramo evolutivo da espécie humana é cada vez mais compreendido, embora haja ainda muitas lacunas. E cada um destes estudos é uma evidência à parte na compreensão do Universo. Compreensão esta que não se baseia em escrituras: é preciso ver para crer; é preciso a evidência.
Se as evidências mostram que as estrelas são tão ou mais imponentes do que o Sol; se os milhares de anos de criação esbarram nas evidências dos milhões de anos de idade do planeta; se a Grande Cadeia do Ser é desfigurada pelos ossos fósseis espalhados pelo subsolo da Terra; se Adão e Eva cada vez mais se confundem com primatas; se a humanidade está cada vez mais distante de ser o centro de qualquer coisa, tudo isso não significa que a Igreja não é o centro de quaisquer verdades? Talvez chegue o dia, leitor, em que até esta idéia a Igreja terá de aceitar pela força das evidências.

Notas:

1 - O uso da palavra revolução no sentido de reviravolta radical no modo de pensar ou agir começou após o título desta célebre obra.

2 - Conta história que Galileu murmurou a frase Eppur si muove (mesmo assim, ela se move) após se retratar perante o conselho de padres e bispos. Ainda não há um consenso entre os historiadores se tal fato ocorreu ou se é apenas uma lenda; mas pouco importa, lenda ou fato verídico, mesmo assim a Terra se move!

 

 


 


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