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Ciência, ilusão e o apetite pelo fascínio     
de Richard Dawkins


 
   

    Você poderia dar à Aristóteles um seminário. E você poderia emocionar ele até o âmago do seu ser. Aristóteles foi um polimatemático enciclopédico, um intelectual de todos os tempos. Porém você pode não apenas saber mais que ele sobre o mundo. Você pode também ter uma compreensão mais profunda de como tudo funciona. Tal é o privilégio de viver após Newton, Darwin, Einstein, Planck, Watson, Crick e seus colegas.
Eu não estou dizendo que você é mais inteligente do que Aristóteles, ou mais esperto. Pelo que sei, Aristóteles é a pessoa mais inteligente que já viveu. Essa não é a questão. A questão é apenas que a ciência é cumulativa, e nós vivemos depois.
Aristóteles tinha muito a dizer sobre astronomia, biologia e física. Mas as suas visões soam esquisitamente ingênuas hoje. Não tão rápido quanto nos afastamos da ciência, entretanto. Aristóteles poderia andar direto em um seminário moderno sobre ética, teologia, política ou filosofia moral, e contribuir. Mas deixe-o andar numa aula de ciência moderna e ele seria uma alma perdida. Não por causa do jargão, mas por causa dos avanços da ciência, cumulativamente.
Eis aqui uma pequena amostra das coisas que você poderia dizer a Aristóteles, ou qualquer outro filósofo Grego. E surpreender e encantar a eles, não apenas com os fatos por si mas com a forma que eles se juntam tão elegantemente.
A terra não é o centro do universo. Ela orbita o sol - que é apenas outra estrela. Não existe música das esferas, mas os elementos químicos, da qual a matéria é feita, arranje-os ciclicamente, em algo como oitavas. Não existem quatro elementos, mas uns 100. Terra, ar, fogo e água não estão entre eles.
As espécies vivas não são tipos isolados com essências imutáveis. Em vez disso, através de uma escala de tempo muito longa para humanos imaginarem, elas dividem e divergem em novas espécies, que então vão divergindo e divergindo. Na primeira metade do tempo geológico nossos ancestrais eram bactérias. A maioria das criaturas ainda são bactérias, e cada uma de nossas trilhões de células é uma colônia de bactérias. Aristóteles foi um primo distante de uma lula, um primo próximo de um símio, um primo mais próximo ainda de um macaco (estritamente falando, Aristóteles foi um macaco, um macaco Africano, um primo mais próximo de um chimpanzé do que um chimpanzé é de um orangotango).
O cérebro não serve para resfriar o sangue. Ele é o que você usa para a sua lógica e sua metafísica. Ele é um labirinto tridimensional de um bilhão de células nervosas, cada uma desenhada como um fio para carregar mensagens pulsadas. Se você colocasse todas as suas células cerebrais enfileiradas, elas iriam se estender em volta do mundo 25 vezes. Existem cerca de 4 bilhões de conexões no pequeno cérebro de um tentilhão, proporcionalmente mais nos nossos.
Agora, se você é algo como eu, você terá sentimentos misturados sobre essa recitação. Por um lado, orgulhoso do que a espécie de Aristóteles agora sabe e não sabia. Por outro lado uma sensação inquietante de, "Isso tudo não é um pouco complacente? E quanto aos nossos descendentes, o que eles serão capazes de nos dizer?"
Sim, claro, o processo de acumulação não para conosco. Daqui a 2.000 anos, pessoas comuns que tenham lido um punhado de livros irão estar em uma posição de dar um seminário para os Aristóteles de hoje: para Francis Crick, digamos, ou Stephen Hawking. Então isso significa que nossa visão do universo irá ser tão errada quanto esta?
Vamos manter um senso de proporção sobre isso! Sim, ainda há muita coisa que nós ainda não sabemos. Mas a nossa crença que a terra é redonda e não achatada, e que ela orbita o sol, nunca irá ser suplantada. Isso sozinho é suficiente para confundir aqueles, dotados de um pouco de aprendizado filosófico, que negam a possibilidade de verdade objetiva: aqueles ditos relativistas que não vêem razão para preferir visões científicas sobre mitos aborígenes sobre o mundo. Nossa crença que nós compartilhamos ancestrais com os chimpanzés, e ancestrais mais distantes com macacos, nunca será suplantada embora detalhes de contagem de tempo possam mudar. Muitas de nossas idéias, por outro lado, ainda são melhores vistas como teorias ou modelos cujas previsões, até agora, sobreviveram ao teste. Os físicos discordam sobre se eles estão condenados a cavar para sempre por mistérios mais profundos, ou se a própria física irá chegar a um fim em uma 'teoria do tudo' final, um nirvana do conhecimento. Enquanto isso, há muita coisa que ainda não entendemos, nós devemos proclamar em voz alta essas coisas que nós já entendemos, então focar nossa atenção nos problemas que nós devemos trabalhar.
Longe de ser super-confiante, muitos cientistas acreditam que a ciência avança apenas pela refutação de suas hipóteses. Konrad Lorenz disse que ele espera refutar pelo menos uma de suas próprias hipóteses cada dia antes do café da manhã. Isso era absurdo, especialmente vindo de um grande velho homem da ciência da etologia, mas é verdade que os cientistas, mais que outros, impressionam seus semelhantes ao admitirem seus erros.
Uma influência formativa no meu eu universitário foi a resposta de um respeitado velho estadista do Departamento de Zoologia de Oxford quando um visitante Americano havia publicamente refutado sua teoria favorita. O velho homem andou à passos largos para frente da sala de oratória, apertou calorosamente a mão do Americano e declarou em tons emocionais: "Meu caro colega, eu desejo lhe agradecer. Eu estive errado esses quinze anos." E nós aplaudimos muito. Você consegue imaginar um Ministro do Governo sendo aplaudido na Casa dos Comuns por uma admissão similar? "Renuncia, Renuncia" é uma resposta muito mais apropriada!
Porém há uma hostilidade para com a ciência. E não apenas pela brigada da tinta verde sublinhadora, mas dos novelistas publicados e colunistas de jornais. Colunas de jornais são notoriamente efêmeras, mas seu pinga-pinga, semana após semana, ou dia após dia, a repetição dá à elas influência e poder, e nós temos que notá-las. Uma característica peculiar da imprensa Britânica é a regularidade com que alguns de seus colunistas líderes retornam a atacar a ciência - e não apenas de uma posição estratégica de conhecimento. Algumas semanas atrás, a efusão de Bernard Levin no The Times foi entitulada "Deus, eu e Dr. Dawkins" e tinha o subtítulo: "Cientistas não sabem e nem eu - mas pelo menos eu sei que eu não sei".
Não é uma tarefa difícil sondar à fundo o que o Sr Bernard Levin não sabe, mas aqui está uma ilustração do entusiasmo com o qual ele se gaba disso.
"Apesar de seus abundantes acessos à fundos de pesquisa, os cientistas de hoje ainda têm que provar que um quark vale um saco de feijões. Os quarks estão vindo! Os quarks estão vindo! Corram por suas vidas...! Sim, eu sei que eu não devo zombar da ciência, nobre ciência, que, apesar de tudo, nos deu os telefones móveis, guardas-chuva dobráveis e pasta de dente com várias tiras, mas a ciência realmente pede por isso ... Agora eu devo ser sério. Você consegue comer quarks? Você consegue espalhar eles na sua cama quando o clima frio chega?"
Isso não merece uma resposta, mas o distinto cientista de Cambridge, Sir Alan Cottrell, escreveu uma breve Carta ao Editor: - "Sir: O Sr. Bernard Levin pergunta 'Você consegue comer quarks?' Eu estimo que ele coma 500.000.000.000.000.000.000 de quarks por dia."
Tornou-se quase um clichê observar que ninguém ostenta ignorância sobre literatura, mas é socialmente aceitável ostentar ignorância sobre ciência e orgulhosamente clamar incompetência em matemática. Na Inglaterra, é assim. Eu acredito que o mesmo não é verdade sobre nossos competidores econômicos mais sucedidos, Alemanha, os Estados Unidos e o Japão.
A pessoas certamente culpam a ciência pelas bombas nucleares e horrores similares. Foi dito antes mas precisa ser dito novamente: se você quer fazer mal, a ciência provê as mais poderosas armas para fazer o mal; mas igualmente, se você quer fazer bem, a ciência põe em suas mãos as mais poderosas ferramentas para fazê-lo. O truque é querer fazer as coisas certas, então a ciência irá lhe prover os métodos mais efetivos de alcançá-las.
Uma acusação igualmente comum é que a ciência vai além do seu campo. Ela é acusada de uma tentativa de tomar posse com avaro o território que corretamente pertence à outras disciplinas tal como a teologia. Por outro lado - você não pode vencer! - ouça ao hino de ódio contra 'os cientistas' do novelista Fay Weldon no The Daily Telegraph.
"Não espere que gostemos de você. Você nos prometeu muito e falhou em entregar. Você nunca nem tentou responder as perguntas que todos nós perguntamos quando nós tínhamos seis anos. Pra onde foi a Tia Maud quando ela morreu? Onde ela estava antes de nascer? ... E quem se importa sobre meio segundo após o Big Bang; sobre meio segundo antes? E quanto aos círculos nas colheitas?"
Mais do que alguns dos meus colegas, eu estou perfeitamente feliz ao dar uma resposta simples e direta à ambas as perguntas sobre a Tia Maud. Mas eu seria certamente chamado de arrogante e presunçoso, indo além dos limites da ciência.
Então há a visão que a ciência é enfadonha e mourejadora, com filas de esferográficas em seu bolso de cima. Aqui está outro colunista de jornal, A. A. Gill, escrevendo sobre ciência esse ano no The Sunday Times.
"A ciência está compelida pelos resultados dos experimentos e os paralelepípedos tediosos e mourejadores do empirismo ... O que aparece na televisão só é mais excitante do que vai por trás dela ... Isso é arte, luvvie: teatro, mágica, pó de fadas, imaginação, luzes, música, aplausos, meu público. Existem estrelas e existem estrelas, querida. Algumas são enfadonhas, contorções repetitivas no papel, e algumas são fabulosas, engenhosas, provocantes para o pensamento, incrivelmente populares ..."
O 'enfadonhas, contorções repetitivas' é uma referência ao descobrimento dos pulsares em 1967, por Jocelyn Bell e Anthony Hewish. Jocelyn Bell Burnell relatou na televisão o momento arrepiante quando, uma jovem mulher no limiar de uma carreira, ela soube primeiro que ela estava na presença de algo até agora desconhecido no universo. Não algo novo abaixo do sol, um tipo completamente NOVO de sol, que rotaciona, tão rápido que, ao invés de levar 24 horas como o nosso planeta, ele leva um quarto de segundo. Querida, que mourejador, que coisa loucamente empírica minha querida!
Poderia a ciência ser tão difícil para algumas pessoas, e portanto parecer ameaçadora? Curiosamente o suficiente, eu não ousaria fazer tal sugestão, mas eu fico feliz em citar um distinto literário escolar, John Carey, o presente Professor Merton de Inglês em Oxford:
"As hordas anuais competindo por lugares nos cursos de arte nas universidades Britânicas, e o gotejar de candidatos à ciência, afirmam o abandono da ciência entre os jovens. Embora a maioria dos acadêmicos são cautelosos em dizer isso diretamente, o consenso geral parece ser que os cursos de arte são populares porque eles são mais fáceis, e que a maioria dos estudantes de arte iriam simplesmente não estar preparados para as exigências intelectuais de um curso de ciência."
Minha própria visão é que as ciências podem ser intelectualmente exigentes, mas também pode ser o clássico, pode ser a história, pode ser a filosofia. Por outro lado, ninguém deve ter problemas para entender coisas como a circulação do sangue e o papel do coração em bombear ele. Carey citou as linhas de Donne para uma classe de 30 universitários no seu último ano lendo Inglês em Oxford:
"Tu sabes como o sangue, que o coração faz fluir, Faz de um ventrículo para o outro ir?"
Carey perguntou a eles como, de fato, o sangue flui. Nenhum dos 30 conseguiu responder, e um adivinhou tentativamente que deve ser 'por osmose'. A verdade - que o sangue é bombeado de um ventrículo para o outro através de pelo menos 50 milhas de vasos capilares complicadamente dissecados através do corpo - deveria fascinar qualquer literário escolar de verdade. E diferente da, digamos, teoria quântica ou da relatividade, isso não é difícil de entender. Então eu ofereço uma visão mais caritativa do que o Professor Carey. Eu me pergunto onde é que alguns desses jovens devem ter se tornado positivamente desinteressados pela ciência.
No mês passado eu recebi uma carta de um telespectador que de forma comovente começou: "Eu sou um professor de clarinete que só me lembro que ciência na escola foi um longo período de estudo no bico de Bunsen." Agora, você pode apreciar o concerto de Mozart sem ser capaz de tocar clarinete. Você pode ser um crítico de concertos perspicaz e informado sem ser capaz de tocar uma nota. Claro que a música iria acabar parando se ninguém aprendesse a tocá-la. Mas se todo mundo deixasse a escola pensando você tem que tocar um instrumento antes de você poder ser capaz de apreciar a música, imagine quão empobrecidas muitas vidas seriam.
Não poderíamos tratar a ciência da mesma maneira? Sim, nós precisamos ter bicos de Bunsen e agulhas dissecadoras para os atraídos pela prática do avanço científico. Mas talvez o resto se nós pudéssemos ter classes separadas de apreciação da ciência, a maravilha da ciência, tipos de pensamento científico, e a história das idéias científicas, ao invés de experiência laboratorial.
É aqui que eu procuraria uma reaproximação com outro aparente inimigo da ciência, Simon Jenkins, antigo editor do The Times e um adversário muito mais formidável do que os outros jornalistas que eu citei, porque ele têm algum conhecimento sobre o que ele está falando. Ele se ressente de uma educação compulsória em ciência e ele têm uma visão idiossincrática que não é útil. Mas ele é minuciosamente sensato na exaltação das qualidades da ciência. Em uma conversação gravada comigo, ele disse:
"Eu me lembro de pouquíssimos livros de ciência que eu tenha lido e que tenha chamado de útil. O que eles foram é maravilhosos. Eles realmente me fizeram sentir que o mundo à minha volta é um muito mais cheio ... um lugar muito mais espantoso do que eu jamais percebi que era ... Eu penso que a ciência teve uma história maravilhosa para contar. Mas isso não é útil. Isso não é útil como um curso de estudos de trabalho ou de lei, ou até um curso de política ou economia."
Longe da ciência não ser útil, minha preocupação é que ela é tão útil que ofusca e distrai dos seus valores inspiracionais e culturais. Normalmente até os seus críticos mais severos concedem a utilidade da ciência, enquanto perdem completamente a admiração. A ciência é freqüentemente acusada de minar nossa humanidade, ou destruir o mistério na qual a poesia prospera. Keats acusou Newton por destruir a poesia do arco-íris:
"A filosofia irá prender as asas de um Anjo, Conquistar todos os mistérios através da régua e linha, Esvaziar o ar assombrado, e gnomed mina - Decompor o arco-íris ... "
Keats era, claro, um homem muito jovem.
Blake, também, lamentou:
"Para Bacon e Newton, embainhado em aço deprimente, os seus terrores enforcam Como ferro açoita através de Albion; argumentando como vastas Serpentes dobram-se em torno de meus membros ... "
Eu queria poder encontrar Keats ou Blake para persuadi-los que os mistérios não perdem a sua poesia porque eles são resolvidos. Muito pelo contrário. A solução freqüentemente acaba sendo mais bela do que o quebra-cabeças, e de qualquer jeito a solução descobre mistérios mais profundos. A dissecação do arco-íris em luz de diferentes comprimentos de onda leva às equações de Maxwell, e eventualmente à relatividade especial.
Einstein mesmo era abertamente regrado por uma musa estética científica: "A mais bela coisa que nós podemos experimentar é o mistério. É a fonte de toda arte verdadeira e a ciência.", disse ele. É difícil encontrar um físico de partículas moderno que não tenha tal motivação estética. Típico é John Wheeler, um dos distintos velhos estadistas da física Americana hoje:
" ... nós iremos compreender a idéia central de tudo isso como algo tão simples, tão belo, tão convincente que nós todos iremos dizer um para os outros, 'Oh, como poderia ser diferente! Como nós conseguimos ser tão cegos por tanto tempo!'"
Wordsworth deve ter entendido isso melhor do que seus colegas românticos. Nós olhamos para frente para um tempo quando as descobertas científicas irão se tornar "objetos próprios para a arte dos poetas". E, na pintura do jantar de 1817 de Benjamin Haydon, ele cativou os cientistas, e resistiu às zombarias de Keats e Charles Lamb, ao recusar se juntar em seu brinde: "Confusão à matemática e Newton".
Agora, existe uma aparente confusão: T. H. Huxley viu a ciência como "nada além de senso comum treinado e organizado", enquanto o Professor Lewis Wolpert insiste que isso é profundamente paradoxal e surpreendente, uma afronta ao senso comum ao invés de uma extensão disso. Toda vez que você bebe um copo d'água, você está provavelmente embebendo pelo menos um átomo que passou através da bexiga de Aristóteles. Um resultado tentadoramente surpreendente, mas ele segue o senso comum organizado estilo Huxley das observações de Walpert que "existem muito mais moléculas em um copo d'água do que existem copos d'água no mar".
A ciência controla a escala desde o tentadoramente surpreendente até o profundamente estranho, e as idéias são mais estranhas do que a Mecânica Quântica. Mais de um físico já disse algo como: "Se você pensa que você entende a teoria quântica, você não entende a teoria quântica."
Existe mistério no universo, mistério desconcentrante, mas ele não é caprichoso, excêntrico, frívolo na sua mutabilidade. O universo é um lugar com ordenança e, em um nível mais profundo, regiões dele se comportam como outras regiões, tempos se comportam como outros tempos. Se você pôr um tijolo em uma mesa ele fica lá até que algo legalmente o mova, mesmo se você enquanto isso esquecer que ele está aí. Poltergeists e duendes não intervém e o arremessam por aí por razões de travessura ou capricho. Existe mistério mas não mágica, estranheza além da imaginação mais extravagante, mas sem encantos ou bruxaria, sem milagres arbitrários.
Até a ficção científica, embora ela possa mexer com as leis da natureza, não pode abolir a própria legalidade e permanecer sendo boa ficção científica. Jovens mulheres não tiram suas roupas e espontaneamente se transformam em lobas. Um recente drama de televisão é um conto de fadas ao invés de ficção científica, por essa razão. Ela falha por causa de uma proibição teórica muito mais profunda do que a racionalização indutiva filosófica "Todos os cisnes são brancos - até um negro aparecer". Nós sabemos que as pessoas não podem se metamorfosear em lobos, não porque o fenômeno nunca foi observado - muitas coisas acontecem pela primeira vez - mas porque lobisomens iriam violar o equivalente à segunda lei da termodinâmica. Disso, Sir Arthur Eddington disse:
"Se alguém lhe mostrar que a sua teoria preferida do universo está em discordância com as equações de Maxwell - então é muito pior para as equações de Maxwell. Se for achado que ela é contraditória por observação - bem, esses experimentalistas fazem coisas mal feitas algumas vezes. Mas se a sua teoria acabar sendo contra a segunda lei da termodinâmica eu não posso lhe dar nenhuma esperança; não resta nada para ela a não ser colapsar na mais profunda humilhação."
Seguir a relação entre os lobisomens e a entropia iria me levar longe demais fora do campo. Mas, já que essa conferência comemora um homem cuja integridade e honestidade como um apresentador ainda é uma grande lenda 30 anos após sua morte, eu vou permanecer por um momento com a atual epidemia de propaganda paranormal na televisão.
Em um tipo popular de programação, ilusionistas vêm e fazem truques de rotina. Mas ao invés de admitir que eles são ilusionistas, esses performistas de televisão afirmam ter genuínos poderes sobrenaturais. Com isso eles são incitados pelo prestígio, até tornados cavaleiros, apresentadores, pessoas com quem nós temos o hábito de confiar, apresentadores que se tornaram modelos. É um abuso do que pode ser chamado de Efeito Richard Dimbleby.
Em outros programas, pessoas perturbadas recontam suas fantasias de fantasmas e poltergeists. Mas ao invés de mandá-las para um psiquiatra gentil, os produtores de televisão ambiciosamente contratam atores para recriar as suas ilusões - com efeitos predizíveis na credulidade das grandes audiências.
Recentemente, um curandeiro por fé recebeu meia hora de graça de horário nobre na televisão, para anunciar suas afirmações bizarras de ser um médium morto há 2.000 anos chamado Paul de Judea. Alguns podem chamar isso de entretenimento, até comédia, embora outros iriam achar isso um entretenimento desagradável, como um show de horrores de parque de diversões.
Agora eu obviamente tenho que retornar ao problema da arrogância. Como eu posso ter tanta certeza que esse Inglês ordinário com um incomum sotaque estrangeiro não era o há muito falecido Paul de Judea? Como eu sei que a astrologia não funciona? Como eu posso ser tão confiante que os 'sobrenaturalistas' da televisão são ilusionistas comuns, apenas porque ilusionistas comuns podem reproduzir os seus truques? (dobrar colheres, por acaso, é um truque tão de rotina que os ilusionistas Americanos Penn e Teller publicaram instruções para fazê-lo na Internet! Veja em http://www.randi.org/jr/ptspoon.html).
Realmente cai na parcimônia, economia de explicação. É possível que o motor do seu carro seja dirigido por energia psicocinética, mas se ele parecer com um motor à petróleo, cheirar como um motor a petróleo e funcionar exatamente igual à um motor à petróleo, a hipótese lógica que funciona é a que ele é um motor à petróleo. A telepatia e a possessão por espíritos dos mortos não são descartadas como um problema de princípio. Certamente não existe nada impossível sobre a abdução por alienígenas em Ovnis. Um dia pode acontecer. Mas no campo das probabilidades ela deve ser mantida como uma explicação de última instância. É imparcimonioso, exigindo mais do que a evidência fraca de rotina antes que nós devêssemos acreditar nisso. Se você escutar cascos trotando rua abaixo em Londres, pode ser uma zebra ou mesmo um unicórnio, mas, antes de nós assumirmos que isso é algo além de um cavalo, nós devemos exigir um certo padrão mínimo de evidência.
Foi sugerido que se os sobrenaturalistas realmente tivessem os poderes que eles afirmam, eles iriam ganhar a loteria toda semana. Eu prefiro apontar que eles poderiam também ganhar o Prêmio Nobel por descobrir forças físicas fundamentais até agora desconhecidas pela ciência. De qualquer jeito, porque eles estão desperdiçando os seus talentos fazendo aparições festivas na televisão?
Evidentemente vamos ter a mente aberta, mas não tão aberta que nossos cérebros até pulam para fora. Eu não estou pedindo para todos esses programas serem suprimidos, meramente que a audiência deveria ser encorajada a ser crítica. No caso dos psicocinéticos e leitores de pensamento, seria um bom entretenimento convidar os auditórios no estúdio a sugerir testes críticos, que apenas médiuns genuínos, e não ilusionistas comuns, poderiam passar. Isso daria uma boa forma de show quiz de entretenimento.
Como nós explicamos a atual moda paranormal na mídia popular? Talvez tenha algo a ver com o milênio - nesse caso é deprimente perceber que o milênio ainda está a três anos de distância. Menos portentoso, seria uma tentativa de ganhar dinheiro com o sucesso dos Arquivos X. Ela é uma ficção e portanto defensível como puro entretenimento.
Uma defesa justa, você poderia pensar. Mas novelas, séries policiais e similares são justamente criticados se, semana após semana, eles invadem os lares com os mesmos preconceitos ou inclinações. A cada semana os Arquivos X põem um mistério e oferece dois tipos rivais de explicações, uma teoria racional e uma teoria paranormal. E, semana após semana, as explicações racionais perdem. Mas é apenas ficção, um pouco de diversão, porque ficar tão furioso dentro da roupa?
Imagine uma série criminosa na qual, toda semana, existe um suspeito branco e um suspeito negro. E cada semana, abaixo e contempladamente, o negro acaba sendo o culpado. Imperdoável, claro. E meu ponto é que você não poderia defender ela dizendo: "Mas isso é apenas ficção, apenas entretenimento".
Não vamos voltar a uma era negra da superstição e absurdos, um mundo no qual a cada hora você perde as suas chaves você suspeita de poltergeists, demônios ou abduções alienígenas.
Já chega, deixe-me virar para tópicos mais felizes. A popularidade do paranormal, curiosamente, pode ser o chão para o encorajamento. Eu penso que o apetite pelo mistério, o entusiasmo por ele que nós não compreendemos, é saudável e deve ser adotado. É o mesmo apetite que guia o melhor da ciência verdadeira, e é um apetite que a ciência verdadeira está qualificada para satisfazer. Talvez seja esse apetite que está por trás do sucesso dos paranormalistas.
Eu acredito que os astrólogos, por exemplo, estão brincando - abusando - com o nosso senso de fascínio. Eu quero dizer quando eles seqüestram as constelações, e empregam linguagem sub-poética como a lua se movendo para a quinta casa de Aquário. A astronomia verdadeira é a legítima proprietária das estrelas e do seu fascínio. A astrologia fica no caminho, até subverte e libertina o fascínio.
Para mostrar como o verdadeiro fascínio astronômico pode ser apresentado às crianças, eu vou pedir emprestado um livro chamado Earthsearch de John Cassidy, que eu trouxe da América para mostrar à minha filha Juliet. Encontre um lugar aberto grande e pegue uma bola de futebol para representar o sol. Ponha a bola no chão e ande dez passos em uma linha reta. Enterre um alfinete no chão. A cabeça do alfinete representa o planeta Mercúrio. Dê outros 9 passos além de Mercúrio e ponha no chão um grão de pimenta para representar Vênus. Sete passos adiante, deixe outro grão de pimenta para a Terra. Dois centímetros e meio além da terra, outro alfinete representa a Lua, o lugar mais longe, lembre-se, que nós já alcançamos. 14 passos a mais para o pequeno Marte, então 95 passos para o gigante Júpiter, uma bola de ping-pong. 112 passos adiante, Saturno é uma bola de gude. Não há tempo para lidar com os planetas mais distantes a não ser dizer que as distâncias são muito maiores. Mas, quão longe você teria que andar para alcançar a estrela mais próxima, Próxima Centauri? Pegue outra bola de futebol para representá-la, e saia para andar por 6.700 quilômetros. Para a galáxia mais próxima, Andrômeda, nem mesmo pense nisso!
Quem iria voltar para a astrologia quando eles tivessem uma amostra da coisa real - astronomia, "vias estreladas" de Yeats, sua "multidão solitária, majestosa"? O mesmo poema amável nos encoraja a "Lembrar a sabedoria dos dias antigos" e eu quero terminar com um pequeno pedaço fascinante do meu próprio território da evolução.
Você contém um trilhão de cópias de um grande documento textual escrito em um código digital altamente preciso, cada cópia tão volumosa quanto um livro importante. Estou falando, claro, do DNA nas suas células. Livros-texto descrevem o DNA como um anteprojeto do corpo. É melhor ser visto como uma receita para fazer um corpo, porque é irreversível. Mas hoje eu quero apresentá-lo como algo diferente novamente, e até mais intrigante. O DNA em você é uma descrição codificada de mundos antigos no qual os seus ancestrais viveram. O DNA é a sabedoria dos dias antigos, e eu quero dizer dias realmente muito antigos.
Os documentos humanos mais antigos datam de alguns milhares de anos, originalmente escritos em figuras. Os alfabetos parecem ter sido inventados a cerca de 35 séculos atrás no Oriente Médio, e eles mudaram e procriaram em numerosas variedades do alfabeto desde então. O alfabeto do DNA surgiu a pelo menos 35 milhões de séculos atrás. Desde essa época, ele não mudou nem um pouquinho. Não apenas o alfabeto, o dicionário de 64 palavras básicas e seus significados é o mesmo em bactérias modernas e em nós. Ainda assim o ancestral comum de quem nós dois herdamos esse preciso e exato dicionário viveu pelo menos à 35 milhões de anos atrás.
O que muda são os programas longos que a seleção natural escreveu usando essas 64 palavras básicas. As mensagens que chegaram à nós são as que sobreviveram por milhões, em alguns casos centenas de milhões, de gerações. Para cada mensagem bem sucedida que alcançou o presente, incontáveis falhas caíram como as lascas de um escultor no chão. Isso é o que a seleção Darwiniana significa. Nós somos os descendentes dessa pequena elite de ancestrais bem sucedidos. O nosso DNA provou ser bem sucedido, porque ele está aqui. O tempo geológico entalhou e esculpiu o nosso DNA para sobreviver até o presente.
Existem talvez 30 milhões de espécies distintas no mundo hoje. Então, existem 30 milhões de maneiras distintas de fazer um ser vivo, maneiras de passar o DNA adiante no futuro. Alguns o fazem no mar, alguns na terra. Alguns em cima de árvores, alguns em baixo da terra. Alguns são plantas, usando painéis solares - nós os chamamos de folhas - para coletar energia. Alguns comem as plantas. Alguns comem os herbívoros. Alguns são grandes carnívoros que comem os menores. Alguns vivem como parasitas dentro de outros corpos. Alguns vivem em nascentes quentes. Uma espécie de minhocas pequenas é dita de viver inteiramente dentro de barris de cerveja Alemães. Todas essas maneiras diferentes de fazer um ser vivo são apenas táticas diferentes para passar o DNA adiante. As diferenças estão nos detalhes.
O DNA de um camelo uma vez esteve no mar, mas ele não esteve ali por uns bons 300 milhões de anos. Ele gastou a maior parte da história geológica recente em desertos, programando corpos para resistir à poeira e conservar água. Como os penhascos de areia foram entalhados em formatos fantásticos pelos ventos do deserto, o DNA do camelo foi esculpido pela sobrevivência em desertos antigos para produzir os camelos modernos.
À cada estágio de sua aprendizagem geológica, o DNA de uma espécie foi afiado e aparado, entalhado e rejigado pela seleção em uma sucessão de meio ambientes. Se nós pudéssemos ler a linguagem, o DNA do atum e da estrela do mar iria ter 'mar' escrito no texto. O DNA das toupeiras e das minhocas iria soletrar 'subterrâneo'. Claro que todo o DNA iria soletrar muitas outras coisas também. O DNA do tubarão e da cheetah iria soletrar 'cace', assim como mensagens separadas sobre o mar e a terra.
Nós não podemos ler essa mensagens ainda. Talvez nós nunca iremos, porque a sua linguagem é indireta, como se adequa uma receita ao invés de um anteprojeto reversível. Mas ainda é verdade que o nosso DNA é uma descrição codificada das palavras com o qual os nossos ancestrais sobreviveram. Nós somos arquivos ambulantes do Pliocênio Africano, até dos mares Devorianos, repositórios ambulantes da sabedoria dos dias antigos. Você poderia gastar uma vida inteira lendo tais mensagens e morrer sem estar satifeito pelo fascínio.
Nós vamos morrer, e isso faz de nós os sortudos. A maioria das pessoas nunca vai morrer porque elas nunca vão nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar mas que nunca irão ver a luz do dia ultrapassa o número de grãos de areia no Saara - mais, os átomos no universo. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Donne, cientistas maiores do que Newton, compositores maiores do que Beethoven. Nós sabemos disso porque o conjunto de pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA ultrapassa massivamente o número de pessoas atuais. No dente desses números de deixar estupefato está que você e eu somos os privilegiados de estar aqui, privilegiados com olhos para ver onde nós estamos e cérebros para perguntar por quê.
Existe um apetite pela admiração, e não é verdade que a ciência verdadeira é bem qualificada para alimentá-lo?
É freqüentemente dito que as pessoas 'precisam' de algo mais em suas vidas do que apenas o mundo material. Existe uma brecha que precisa ser preenchida. As pessoas precisam sentir um senso de propósito. Bem, não seria um MAU propósito encontrar o que já está aqui, no mundo material, antes de concluir que você precisa de algo mais. Quanto mais você quer? Apenas estude o que há, e você irá achar que ele já é muito mais exaltante do que qualquer outra coisa que você imagine precisar.
Você não tem que ser um cientista - você não tem que usar o bico de Bunsen - para entender ciência o suficiente para sobrepor a sua necessidade imaginada e preencher essa fenda imaginária. A ciência precisa ser transportada do laboratório para dentro da cultura.


Discurso Richard Dimbleby, BBC1 Television, 12 de Novembro, 1996

 


 


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